quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Sobre assédio sexual

Não é não. E pronto.

Homem, mulher ou qualquer outro gênero. Qualquer um têm direito de se recusar a ficar com alguém e deve ter seu desejo respeitado.

Eu demorei para falar do comportamento tóxico da Karol Konká aqui no blog porque eu era fã dessa mulher. As músicas dela falavam diretamente comigo, eu ouvia e me sentia empoderada. Então é um choque cair do cavalo dessa maneira. É difícil acreditar que uma mulher que gravou uma música chamada "100% feminista" esteja prestando um desserviço tão grande à causa. 

Pois bem, depois de ontem, não tem para onde correr. 

Desde o começo do jogo, Karol se mostrou interessada em Arcrebiano. Os dois fizeram prova de resistência juntos, mas ninguém tinha visto clima de romance nenhum entre os dois. Do nada, ela começou a dizer pela casa que havia um interesse da parte dele e que ela poderia estar correspondendo o tal interesse.

Ontem, Karol encurralou o rapaz. Durante o dia, se deitou de conchinha com ele e o encheu de perguntas e insinuações que o deixaram desconfortável. À noite, durante a festa, estava decidida a beijá-lo. E por mais que ele tenha negado várias vezes, ela continuou agarrando-o. Vimos cenas dela pendurada no pescoço dele, ele se esquivando e ela forçando a barra, dizendo "só um selinho, então, vai". Foram cenas de horror para os dois lados. Karol se humilhando por uma migalha (sem contar com o fato de ter jogado sua possível concorrente para os braços de outro), Arcrebiano super sem jeito, sem querer ser grosseiro, mas com nenhuma vontade de ficar com ela, aparentemente. Um não quer, o outro insiste veementemente = configura assédio.

Alguns disseram por aí "ah, mas ele acabou ficando, então é porque no fundo ele queria". Toda pessoa que já sofreu assédio e não conseguiu escapar já ouviu isso. 

Arcrebiano foi um gentleman. Não destratou Karol em nenhum momento, não foi violento e nem agressivo. Mas seu semblante mostrava claramente seu desconforto, seu constrangimento, sua vontade de se livrar daquela situação. Ele foi assediado em público, em rede nacional, por uma mulher que fala por aí em suas músicas contra o assédio. O fato de ele ter acabado ficando com ela, não apaga o fato de que ele sofreu assédio. Quantes de nós já cedemos por pressão, por medo, para se livrar da pessoa, por vergonha? 

Karol Konká, aliás, vem sendo abusiva de várias formas dentro da casa, com várias pessoas diferentes. Arcrebiano é só mais uma vítima de seu comportamento tóxico e seu jogo sujo.

A cantora chegou a afirmar em uma conversa que Juliette é o tipo de mulher que fingiria um assédio para prejudicar um homem e que ela sufocava os meninos da casa com seu jeito. Como se isso não fosse quase um pecado capital saído da boca de uma suposta feminista.. é também interessante essa colocação. Diria que minimamente irônica, não?

Aguardo as consequências das ações abusivas de Karol Konká. O tombo vai ser feio, como ela mesma já disse em sua consagrada canção.






segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O esquerdomacho

Por conta do BBB do ano passado, onde pautas como o feminismo e o racismo foram assuntos em evidência entre os participantes e definiram toda a dinâmica do jogo, o BBB21 começou com uma pegada bem diferente. Esse debate já entrou com força desde o primeiro dia do programa e iniciou-se um perigoso jogo de cancelamento dentro da própria casa e um clima de bastante intolerância.

Dentro dessa temática, surge uma figura que eu ainda não tinha catalogado aqui no blog: o esquerdomacho. Representada principalmente na figura do Fiuk dentro da casa, o esquerdomacho é aquele homem que paga de desconstruidão, de apoiador de causas como feminismo e racismo, mas no fundo não passa de um macho escroto do mesmo naipe do hetero top que tanto criticamos. É um executor ferrenho de práticas como maninterrupting e mansplaining. É aquele que pede desculpa por ser homem e nos faz revirar os olhos num movimento de 360º.

Para começar, o Fiuk estragou expressões como "desconstrução", "reconhecer seus privilégios" e "lugar de fala". Está usando de forma leviana, querendo "converter" pessoas como se ele fosse o suprassumo entendedor das causas. 

Eu não estou aqui para cancelar ninguém. Eu acredito muito na aprendizagem, na evolução das pessoas - até porque, se não acreditasse, esse blog nem existiria, porque eu o vejo como uma ponte para aprender, não só uma chuva de críticas. Porém, o que falta para quem está aprendendo esse tipo de coisa, é ouvir mais e falar menos. Aprender é colocar em prática, muito mais do que arrotar lições de moral em qualquer pessoa que aparecer na sua frente. Na maioria dos casos, o cabra presta um serviço de muito mais qualidade se mantendo de boca fechada.

O Fiuk, por exemplo, nos primeiros dias de jogo, pareceu ser super sensato, aberto, acolhedor. Seu jeito carinhoso conquistou a paraibana Juliette, que logo começou a imaginar coisas românticas a seu respeito (chegando até a deixar o público impaciente com tamanha empolgação). Fiuk estava lidando  com o assunto de forma leve, mas agora, percebendo seu poder sobre a moça, usa de um tom arrogante e superior para falar com ela e dela (mas sempre com a fala bem mansa, repare), chegando a humilhá-la e fazendo-a sentir burra e não-autêntica. Esse é um dos comportamentos-chave de um esquerdomacho. Clica aí embaixo para conferir o ataque:


Fiuk praticou maninterrupting pesado com Carla Diaz (e tem feito isso com frequência) e já é conhecido na casa como um participante que não deixa ninguém falar. Depois de ter ido atrás dela para, supostamente, saber se estava bem e queria conversar, ficou debochando dela com outros participantes da casa. Também já vimos cenas onde ele "explica" para Carla seu lugar de privilégio num tom bastante presunçoso, fazendo-a sentir culpada por ter nascido branca e por ser uma artista bem-sucedida. Isso passa bem longe do objetivo de ensinar alguém a reconhecer seus privilégios. Reconhecer seus privilégios é um passo para que você use sua voz, que é ouvida, para ajudar quem não é ouvido (entre outras coisas, claro). Não deve ser uma ferramenta para fazer alguém que não tem culpa de ter nascido privilegiado se sentir mal por sua condição natural. Clica aí embaixo para conferir a palestrinha:


Li no Twitter (não vi essa cena) que as meninas estavam falando sobre tamanho de seios e o Fiuk chegou dizendo que corpo natural é lindo, que ele se amarra em seios pequenos e coisa e tal. Já falei aqui brevemente também sobre a mania que os homens tem de palpitar sobre nossos corpos. Com certeza ele achou que estava arrasando com esse comentário, já que a sociedade idolatra mulheres com seios grandes. Porém, mais uma vez, ele chega dando palpite em coisas que desconhece. Não experimenta da dor da pressão dos padrões estéticos sobre a mulher, dá opinião que não foi solicitada e palestra sobre assuntos que nunca lhe dirão respeito. Clássico esquerdomacho.

Fiuk é tão sem noção que soltou frases como "eu tive uma vida muito difícil", "ser pobre é uma delícia" e "não sabia que eu ia passar fome aqui", numa sala onde havia pessoas que cresceram na periferia, sem 1% das oportunidades que ele teve e possivelmente tendo algum que realmente tenha passado fome. Isso prova o quanto o discurso dele é incoerente com suas ações. Se tem uma coisa que ele não sabe ainda é reconhecer seus privilégios, embora não se acanhe em puxar cada participante da casa num canto e vomitar seu discurso decorado de livro. 

Portanto minha amiga, quando você conhecer um cara que paga de desconstruidão por aí, tome cuidado. Já fique de olho nesses sinais de alerta, porque se ele for um esquerdomacho, aparecem rapidinho. 

Para terminar, deixo esse vídeo sensacional da Ademara (uma influencer comediante de Pernambuco maravilhosa!) com uma ilustração do esquerdomacho clássico:



segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

O homem-gambá

Essa quarentena mexeu com nossas cabeças de um jeito que nem Freud explicaria. Em nome da carência, algumas pessoas aceitaram coisas que até Deus duvida. E é nesse espírito que venho contar a história da nossa heroína do dia. 

Eliane um dia foi visitar uma sobrinha e conheceu uma amiga dessa sobrinha, que disse ter um irmão para apresentar para ela. Gustavo, o tal irmão, adicionou Eliane no Instagram e assim começaram a se conhecer.

Tudo foi estranho desde o começo. Gustavo insistia para que Eliane o recebesse em sua casa e chegava a ser inconveniente com a insistência. Porém, como a carentena bateu forte, Eliane acabou cedendo um dia desses e o rapaz foi parar em seu apartamento. 

Era a primeira vez que se veriam, mas pelo jeito ele não se preocupou nem em tomar um banho. Chegou com aquele fedor de quem passou o dia todo na rua e isso já deixou Eliane bastante desanimada.

Ainda assim, a carentena não deixou de falar mais alto e quando menos esperava, ela estava na cama com um cara que gritava OHHHH a cada enfiada e que urrava feito um gorila na selva quando gozava; ela nunca se esforçou tanto na vida para não rir. 

Alguns dias depois, a carentena bateu novamente e Eliane deixou Gustavo fazer uma segunda visitinha. Dessa vez, ele se superou e trouxe, junto com o já conhecido cheirinho azedo de sovaco vencido, um chulé insuportável. O futum empesteou o apartamento, ela teve que arreganhar todas as janelas numa tentativa desesperada de se livrar do odor do bofe. A paciência estava no talo. Ele sentou-se no sofá e jogou as pernas por cima dela, prendendo sua circulação. Foi o fim. Dessa vez não teve carência que desse conta, Eliane teve que se livrar do homem-gambá.

Depois de alguns dias sem dar muita moral para ele, ela recebe uma mensagem dizendo:

- Você está estranha. Você deve ter algum problema. Você ainda pensa muito no seu ex, né?

- É, você tem razão. Penso MUITO no meu ex.

O mais bonito desse tipo de homem é que ele nunca acha que o problema é ele. É o que a gente sempre diz: a autoestima do homem hetero precisa ser estudada.

E pasmem, quando ela achou que havia passado por tudo o que tinha que passar com esse homem, ele comenta um de seus stories dizendo:

- Quero você com esse bocão aí!

Às vezes é melhor ficar na carência, galera. Vai por mim. Nada é tão ruim que não possa piorar. 

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*Todos os nomes desse post estão com nomes fictícios, como sempre fazemos nesse blog.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Tratamento especial?

Esse ano passei por uma situação delicada que quanto mais eu analiso, menos eu entendo onde foi que as coisas se perderam.

A gente fala em não criar expectativas, mas a verdade é que tudo é bullshit. O ser humano é um criador nato de expectativas e com uma boa dose de encorajamento, a coisa tende a desandar de forma desgovernada. O resultado é quase sempre um coração partido e uma quantidade infinita de "por quês".

É claro que eu não entrei imaginando que ia dar tudo certo. Afinal de contas, quando você resolve se envolver com uma pessoa que terminou um namoro de mais de uma década há pouco tempo, você já sabe que a chance de se dar mal é grande.

Mas essa probabilidade significa nada quando você e a outra pessoa parecem estar conectados de uma forma inexplicavelmente boa. Quando tudo parece estar em sintonia, quando você finalmente encontrou aquele cara que atende todos os requisitos da sua check list dos sonhos, o resto se torna invisível.

O cara te trata como rainha. Te apresenta para os pais. Te busca no aeroporto quando você chega de viagem. Te manda mensagem todo dia. Vai atrás das suas amigas para saber se você está bem quando você demora a avisar que chegou em casa. Lembra que você sonhou com um chocolate e compra o tal chocolate para te dar de presente. Olha para você com carinho, e diz o quanto ele está feliz, de forma constante. Te lembra toda hora o quanto você é maravilhosa e o quanto traz luz para vida dele. Faz planos com você. Te coloca no grupo de whatsapp dos amigos dele. Dorme na sua casa todo FDS. Quem não vai criar expectativas? Quem vai lembrar que tem ex fresca na cabeça dele?

Os sinais começam a aparecer de leve, mas ele continua bom em te deixar tranquila e não ter medo de baixar a guarda. Você baixa.

E logo, logo toma um pé na bunda por mensagem. Como se isso fosse válido em qualquer situação. E com as palavras mais frias que nem parecem estar vindo daquela pessoa que te fazia se sentir tão bem e amada.

O problema é que tem uma categoria "nova" de caras babacas por aí: eles acham que tem que tratar toda mulher como se fosse a mais especial do mundo. Que isso é ser um cara decente, um bom moço. I'll tell you what... PAREM! 

Não confundam respeito, sinceridade, transparência com brincar com os sentimentos das pessoas. Vocês não precisam tratar toda mulher como a mais especial do mundo. Para ser considerado decente, só é necessário ser respeitoso e honesto. O resto já é alimentar um amor que você não pretende colher e isso é TÃO cruel! 

Cada vez que olho para trás, me pergunto se o que vivi foi verdadeiro de alguma forma e como pode ter sido tão insignificante para outra pessoa quando foi tão importante para mim. E não adianta ele dizer que "não é bem assim"; quando alguém não tem coragem de olhar nos seus olhos e explicar porque não pode mais estar com você, já é um atestado de que você não teve tanta importância assim. E dói. Para cacete. Quando as palavras não têm coerência com as atitudes, elas são irrelevantes.

Então, eu peço, rapazes... Tratem bem as pessoas com as quais vocês se relacionam. Isso significa ter respeito e ser honesto. Se não está preparado, se não tem intenção de se abrir, não alimente. Não transforme aquilo numa relação se realmente não quiser uma. Seja educado, mas não aja como se estivesse super envolvido se não estiver. O que te faz ser babaca não é querer ou não alguém, mas a forma como você lida com esse não querer, com seus sentimentos e os da outra pessoa. Tenham responsabilidade afetiva. Se recuperar da impressão de ter passado um tempão vivendo uma mentira é muito doloroso.

Honestidade sempre vale a pena. Seja honesto com você e com os outros.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

O dia em que legalizaram o estupro no Brasil

O dia em que legalizaram o estupro no Brasil - o vídeo


Hoje eu morri um pouquinho. Vivi para ver um juiz inocentar um estuprador mesmo cheio de provas. E isso me matou.

Fica até difícil colocar os sentimentos em palavras porque é um nível de revolta que nos deixa atônitas, sem ter mesmo como se expressar. 

Como se o nosso país já não fosse super perigoso para ser mulher, eles conseguiram deixar ainda pior. Levantaram a possibilidade de que é possível estuprar sem ter a intenção.

Ler a reportagem do "The Intercept" sobre o julgamento foi a mesma sensação de ficar de cabeça para baixo depois de ter comido muito. Náusea. Vontade de vomitar.

Como se costuma fazer por aqui, expuseram a vida da vítima. Mostraram fotos de seus trabalhos de modelo, com pouca roupa, fazendo poses sensuais. Questionaram sua integridade, sua moral, suas motivações. Disseram até que não gostariam "de ter uma filha do seu nível". Humilharam-na de todas as formas possíveis, com a permissão do juiz. O ás da justiça.

E aí, quando imaginava-se que não podia ficar pior... Emitiram a sentença por falta de provas, com a fundamentação de que não tinha como ele saber se a vítima estava em condições de reagir ou não e que não existe categoria culposa do crime de estupro de vulnerável; portanto, o crime não teria acontecido. Aos que não entendem, isso significa que o réu "não teve a intenção de estuprar". 

Agora me diga... como alguém não tem intenção de estuprar?! Ninguém transa com alguém à força sem querer. Isso é tão absurdo, tão ridículo, que parece até sem noção explicar. E por não existir esse crime previsto em lei, André Aranha, o estuprador, foi absolvido. MAS É CLARO QUE NÃO EXISTE ESSE CRIME EM LEI. Isso não existe! Não existe estupro não intencional! Existe uma sociedade bosta, misógina, imunda, QUE QUER NOS MATAR.

A partir de agora, quantos estupradores serão absolvidos sob a alegação de "estupro culposo"? Quantos advogados alegarão que seu cliente não teve a intenção de estuprar? O termo [estupro culposo], de fato, não foi utilizado como tal, mas a interpretação pode se dar dessa forma. Há muito mais escrito nas entrelinhas dessa sentença (e na forma como esse julgamento foi conduzido) do que apenas as palavras que podemos ler. Legalizaram o estupro no Brasil, minha gente. LEGALIZARAM o estupro no Brasil.

É pra combater essa cultura assassina que blogs como o meu existem. Para denunciar, para gritar nossas dores, para que eles saibam que não vão nos calar! Que por mais que passemos por coisas absurdas como essas, não passaremos caladas e passivas! 

Hoje, eu tenho dois pedidos para vocês:

1) Assinem a petição Abaixo-assinado por Mariana Ferrer

2) Compartilhem esse post com o máximo de mulheres que puderem (e homens que nos apoiam também, claro!)

Mexeu com uma, mexeu com todas! Vamos colocar a boca no trombone!


"O estado opressor é um macho estuprador."


PS: Após ler a sentença do juiz na íntegra, alterei algumas coisas do post. O estuprador foi, na verdade, condenado por "falta de provas" ou "provas fracas". Porém, na apelação o promotor cita a "falta de dolo", o que caracterizaria que ele acha que alguém pode estuprar sem ter a intenção.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Alerta: o novo "chat da Uol"

Olá, meus amores!

Hoje vim contar uma história engraçadinha, mas para falar de um assunto sério.

Às sextas-feiras, temos um grupo de amigos que joga online. Normalmente nosso primeiro jogo é GARTIC (é uma espécie de Imagem e Ação online). Você pode entrar em salas que são abertas ao público, e geralmente é isso o que fazemos. Com isso, muitas vezes entramos em salas que tem crianças e adolescentes. Foi o que aconteceu semana passada.

Estávamos lá jogando tranquilamente, até rindo das conversas infantis das meninas que estavam na sala, quando aparece um desenho de "cafuné" para um dos meninos do grupo desenhar. Após ele desenhar, uma das meninas o marcou no chat e disse que a amiga gostava de cafuné e pediu o Whatsapp dele

Achamos super engraçado, rimos muito, até zoamos, mas depois conversando mais sobre o assunto, percebemos o quanto isso poderia ser perigoso. Imagina se um pedófilo entra numa sala dessas e acaba atraindo uma dessas meninas? Elas tiveram sorte de encontrar um homem sem más intenções no caminho, mas dependendo da pessoa, essa história poderia ter tido um fim diferente, talvez até trágico.

Algumas alunas minhas (meninas de 12, 13 anos, como as meninas do jogo) já relataram terem sido abordadas por homens no Instagram, então isso não seria nenhuma novidade. O fascínio por homens mais velhos, o mistério por trás do desconhecido, a maturidade fake que parece vir junto com a adolescência: tudo isso pode ser a receita perfeita para um pedófilo em ação. Esse ano, inclusive, houve várias denúncias de pedofilia praticada por professores nas escolas. Eles se aproveitam de todos esses aspectos citados acima, e acabam envolvendo e seduzindo jovens desavisadas com brincadeirinhas, elogios e carinhos inapropriados.

Eu não sou a favor de invasão da privacidade de adolescentes, mas acredito que seja um momento importante para que os pais fiquem de olho em qualquer comportamento atípico e sempre tenham essa conversa importante com seus filhos e - principalmente - filhas. Se antes nos diziam "não dê conversa para estranhos", agora a coisa ficou ainda mais delicada, pois a interação virtual está cada vez mais comum e conhecer estranhos o tempo todo virou parte da rotina dos adolescentes.

Se nós adultas, ao usarmos aplicativos de namoro, já temos receio de nos encontrar com alguém novo (muitas mandam a localização para uma amiga, como medida de segurança), imagina o cuidado que temos que ter com essas meninas inocentes? Pedófilos que se escondem por trás de telas de celular existem aos montes, portanto, todo cuidado é pouco.

Papais e mamães, liguem as antenas! A solução não é prender as crianças e adolescentes em uma bolha, mas mantê-los sempre bem informados sobre os perigos da Internet. Um diálogo familiar aberto também gera a confiança necessária para que eles se abram com vocês caso algo estranho aconteça no ambiente virtual (e fora dele também, claro!). Sejam os melhores amigos dos seus filhos e vocês conseguirão protegê-los com muito mais eficácia.




quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Você me chamou de quê?!

Toda terça e quinta eu e a Pri, minha personal, fazemos nosso treino em uma quadra de esportes pública aqui em Brasília. Hoje quando eu cheguei, tinha uns meninos adolescentes jogando bola e andando de skate. Tava meio confuso o que eles realmente estavam fazendo ali. Eram uns cinco ou seis. Eu fiquei esperando a Pri embaixo do bloco e quando ela chegou, eles já nem estavam mais jogando bola, estavam mais zanzando, conversando e tinha um fazendo umas manobras de skate.

Como eles não estavam jogando, a Pri pegou nosso cantinho de sempre e começou a montar as coisas do treino. Ela disse que ia falar com eles, mas que assim que ela colocou a sacola no chão, eles começaram a chutar a bola em direção ao local que ela estava, só para intimidá-la. Ela resolveu então não falar nada e só montar as coisas, porque afinal de contas, viu que eles não mereciam esse respeito.

Eu estava fazendo um exercício no chão quando comecei a ouvir a conversa deles:

- A mina é mó vagabunda, cara! Só porque ela não gostou do meu desenho no jogo, me denunciou! A mina nem me conhece, ela é uma arrombada

Eu juro que depois de ouvir isso, eu desconcentrei no exercício. Fiquei com vontade de levantar e ir lá falar umas boas verdades para eles (tô meio arrependida de não ter ido, na verdade!), mas decidi escrever esse post. Principalmente depois que a Pri complementou a conversa deles contando uma história que tinha acontecido na academia pouco tempo antes de me encontrar.

Ela me contou que a TV estava ligada em um programa de esportes, especificamente falando de futebol e havia uma mulher apresentando e comentando. Três professores se reuniram na frente da TV enquanto chamavam a mulher de vagabunda, dizendo que ela não tinha nada que estar apresentando aquele programa. Ela disse que um fez o comentário e os outros deram risada, embora não tivessem, de fato, falado alguma coisa.

E aí ouvindo duas histórias tão parecidas em sequência, eu venho aqui perguntar aos homens: POR QUE TODOS OS XINGAMENTOS QUE VOCÊS DIRECIONAM A UMA MULHER TEM CUNHO SEXUAL? 

Vagabunda
Piranha
Arrombada
Vadia
Puta
Rodada

É impressionante que mesmo quando a história não tem nada a ver com sexo, a gente acaba sendo encaixada nessa categoria de xingamentos ridículos. A verdade é que vocês nos objetificam em qualquer situação e poderiam nos xingar de qualquer outra coisa, mas sempre escolhem ofender com um xingamento sexual.

O menino que não gostou da atitude da menina poderia tê-la descrito como idiota, imbecil, babaca e tantos outros nomes, mas escolheu apelar para palavras de cunho sexual que não tinham nada a ver com o contexto.

Os caras da academia poderiam criticar a apresentadora (não vou nem focar no machismo que sempre rola com as mulheres no esporte, especialmente no futebol) de tantas outras formas! Poderiam dizer que ela é incompetente, que não gostaram dos comentários dela, que não concordam... mas sempre acabam escolhendo esse tipo de palavra. E sabe qual é a cereja no topo? Os outros que não falaram nada. Riram e foram coniventes com o machismo, mesmo que não concordassem. E se você não concorda com uma atitude de um brother seu, mas ri ou fica quieto quando ele faz, você é conivente e está tão errado quanto ele.

Não pude deixar de lembrar mais uma vez das ofensas horríveis sofridas pela presidenta Dilma, que sempre que fazia algo considerado errado ou incompetente era chamada desses mesmos nomes supracitados. Se um presidente homem faz as mesmas coisas (ou até piores, como podemos ver nesse neandertal que vocês elegeram para presidente do Brasil!), jamais vai ser atacado pelas vias sexuais. Embora a gasolina esteja o dobro do valor da época da Dilma, você não vai ver adesivos por aí com gasolina saindo do cu do Bolsonaro. E já sabe o por quê.

Uma vez eu expulsei um aluno (de 12 anos) de sala porque ele xingou uma colega da piranha, numa "brincadeira". É é assim que a gente combate esse tipo de comportamento machista, desde jovem cortando pela raiz essas escolhas vocabulares tão normalizadas e disseminadas.

A Pri contou que uma aluna ouviu o comentário dos professores da academia e na hora se levantou e foi defender a moça da TV. E assim a gente também mostra que não vamos aceitar mais essas ofensas escrotas e sem noção de braços cruzados e que a cada dia mais incorporamos o sentido da sororidade às nossas vidas.

Chegou a hora (aliás, passou da hora!) de vocês começarem a filtrar esse tipo de vocabulário da vida de vocês. Essas escolhas não são aleatórias; são reflexo de uma sociedade que nos coloca unicamente no papel de objetos sexuais e o único jeito de nos criticar é "ofendendo nossa honra". As mulheres são seres humanos que vivem fazendo cagada também, mas seja mais coerente na hora de criticar ou até mesmo de xingar. Pare de ser um macho tóxico que precisa falar da nossa "vida sexual" para nos ofender. 

Grow up.












quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Deixe o seu passarinho dentro da gaiola

 Esses dias estava conversando com umas amigas e uma delas foi contar uma história bem conhecida da maioria das mulheres solteiras: conheceu um cara num aplicativo, conversa vai, conversa vem e, no mesmo dia, quando ela menos esperava... BAM! Rola não solicitada. Seguido de vídeo se masturbando não solicitado. 

Eu queria dizer que essa história me chocou, mas a verdade é que já ouvi tantas vezes esse relato de diferentes mulheres que só conseguia pensar "oh, yeah, it seems about right".

Sinceramente, eu não sei o que se passa na cabeça de um cabra que faz isso. Primeiramente, não conhece mulher AT ALL, né? Nós não somos como vocês, que só de olhar para um órgão sexual já ficam em ponto de bala. Nossa excitação é um pouco mais complexa que isso. É cheiro, é toque, é conexão, é audição. Se você quer saber, quando você manda essas fotos, a gente só encaminha para as amigas para dar risada. 

Segundamente, o que te faz pensar que vamos ficar felizes em ver o pinto de uma pessoa que conhecemos há menos de 24h? Meu bem, se não foi solicitado, não envie. Uma coisa é você estar no meio de um sexting (sexo por mensagem), ou naquela vibe falando do assunto e aí tem todo um contexto para envio de fotos safadas; outra coisa é você num minuto perguntar em que a pessoa trabalha e no outro minuto mandar foto da sua jeba. Além de nada sexy, é invasivo e inconveniente. 

Pensando nessa perspectiva, resolvi fazer uma lista sobre outras coisas que as mulheres não solicitaram aos homens e vivem recebendo, além de rolas e punhetas virtuais:

- Opinião sobre nossos corpos;

- Opinião sobre nossa vontade de casar ou ter filhos;

- "Explicações" sobre o que é feminismo;

- Categorização em "pra comer" e "pra casar";

- Informações sobre o quanto "a sua ex era louca";

- Opiniões sobre nossas roupas ou maquiagem;


Tem mais coisa, mas por ora, deixo vocês com essa pequena reflexão sobre autocontrole. 

A gente vive em sociedade; se fizermos tudo o que queremos, o mundo ficará mais caótico do que já é. Segurem seus pintos dentro da cueca e só tirem para fazer xixi, lavar ou caso seja solicitado. Have some self-control, for God's Sake! 

Ah! Façam o mesmo com as outras coisinhas da lista também, não custa nada.




sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O nosso blog virou livro!



Olá, pessoal! Trago novidades quentes: o nosso blog virou livro

Para quem nos acompanha há muito tempo, sabe que ano passado fizemos 10 anos de Cama, Tradução e Banho! Que loucura, né? Nem parece que há uma década iniciamos essa jornada de tanto aprendizado, risadas e reflexões.  

Em comemoração ao nosso aniversário, lancei uma coletânea com alguns textos selecionados que considerei icônicos de toda a jornada desse blog. Eu colocaria muitos outros, mas o livro só podia ter 100 páginas. Uma pena, o que não falta aqui é assunto bom para gente espalhar! 

Os leitores mais antigos sabem que o blog começou com 5 escritoras e foi diminuindo até que eu sobrei sozinha. Por essa razão, coloquei textos só meus no livro. 

O livro é filho de um projeto lindo chamado "Frutificando" que dá a oportunidade de publicação para escritores novos. Através desse site Frutificando vocês conseguem comprar livros de escritores super talentosos (inclusive o nosso!) e também se inscrever para participar de um projeto, caso esteja a fim de publicar alguma coisa. 

Eu agradeço a todos os idealizadores e produtores desse projeto que nos ajuda a realizar o sonho da publicação! 

Então se você quer ter alguns dos nossos textos esquentando sua estante em casa ou presentear alguém, já sabe: entra no site do Frutificando e adquira já o seu! Eles entregam em todo o país!


segunda-feira, 22 de junho de 2020

VOCÊ tem direito sobre o MEU corpo?

Quando falamos por aí do desrespeito com o corpo da mulher, muitas pessoas têm a sua "opinião" sobre o que pode ser classificado como desrespeito ou não. Os homens tendem a relativizar essa coisa toda, pois cresceram em uma sociedade que os ensina que eles têm direito sobre nossos corpos. Não raramente passamos por situações constrangedoras como passarem a mão na nossa bunda, puxarem nosso cabelo, pedirem para nos conhecer já nos agarrando pela cintura, etc. Tudo isso parece besta, mas é uma tremenda violação da nossa individualidade.

E isso é só a ponta do iceberg, pois um cara que faz isso, que normalizou esse comportamento (que ele não aceitaria se fosse alguém fazendo com ele - principalmente se fosse outro homem), é capaz de fazer coisas muito piores.

Esse FDS escutei duas histórias que me fizeram refletir muito sobre como precisamos acabar com essa cultura escrota que nos expõe a tantas situações inaceitáveis.

A primeira história é de uma amiga que contou que conheceu um cara na balada. Eles ficaram e ela foi dormir na casa dele. No meio do ato sexual, ele aproveitou que ela estava de costas e tirou a camisinha, e ela só percebeu depois de um tempão.

A princípio, eu achei muito surreal, mas depois, pensando na linha toda da cultura, que acaba incentivando esse tipo de comportamento masculino, fiz um pequeno experimento. Perguntei num grupo com mais 4 amigas (sim, só 4) se já tinha acontecido isso com alguma delas. Dessa forma, eu teria uma noção se isso é uma prática recorrente entre os homens.

Prontamente uma delas disse que sim e relatou a seguinte história:

Ela estava ficando sério com um cara e a primeira vez que eles transaram, foi na loucura, dentro do carro, bêbados, e acabou rolando sem camisinha. Na segunda vez, ele veio querendo fazer sem de novo. Ela disse que não, que aquilo não aconteceria novamente, que foi um vacilo e que ela não queria mais assim. Ele insistiu, querendo fazer sem camisinha, mas ela não cedeu. Porém, no meio do sexo, ele aproveitou que ela estava de costas e tirou a camisinha sem informá-la.

Ao perceber, ela ficou muito chateada, confrontou-o e ele disse que "tirou porque estava incomodando". Ela pediu que ele a levasse para casa imediatamente. E sabe o pior disso tudo? Ela disse que se sentiu "suja, desprezada, um lixo" e morreu de chorar.

Gente, isso é errado de tantas formas diferentes! Como vocês homens não conseguem perceber a gravidade dessas atitudes?!

A primeira coisa que me choca é a falta de autocuidado. Não entendo como pessoas que têm a vida sexualmente ativa, principalmente sendo solteiros, não se preocupam com sua saúde sexual. Como vocês têm tanta certeza de que as pessoas que vocês ficam não tem doenças? Doença não tem cara, não, galera. Qualquer um pode contrair. Não dá para olhar para cara da pessoa e confiar que ela está limpa. Usar preservativo é cuidar de si mesmo, primeiramente. É claro que - não vamos ser hipócritas - às vezes a gente acaba deixando rolar sem camisinha, no calor do momento, mas isso deveria ser uma exceção, e não uma prática comum. É perigoso para todo mundo.

Segundo, o que aconteceu nessas histórias configura ABUSO SEXUAL. O consentimento foi COM camisinha. Se você ultrapassou essa linha, você violou a outra pessoa. SIM, isso também é uma forma de estupro. Estupro é sexo sem consentimento. Se ela não consentiu sem camisinha e você não respeitou, você estuprou. Parece que vocês têm dificuldade de compreender os limites! O seu direito acaba quando começa o do próximo. Se você não quer se proteger é problema seu, mas não tem direito de expor a outra pessoa a sua negligência.

As duas histórias tem antagonistas bem diferentes: um é um desconhecido de uma transa casual. O outro era alguém conhecido, fixo, no qual a minha amiga achou que poderia confiar. Isso mostra bem que não importa a relação que eles têm com a outra pessoa, eles se acham no direito de tomar decisões sobre os nossos corpos.

E por último, você desrespeita a pessoa como ser humano. O sexo é um ato conjunto, então tudo o que acontecer deve ser consentindo por todas as partes. Tirar a camisinha sem informar a outra pessoa é o cúmulo do menosprezo pelo outro. Você não se sentiria violado caso sua parceira fizesse algo sem o seu consentimento? Por que é tão complicado se colocar no lugar do outro? É só a sua vontade que conta?

E aí, além da exposição física ao perigo de uma doença sexualmente transmissível ou uma gravidez indesejada, surgem as consequências psicológicas. A primeira pessoa a me contar a história, relatou um sentimento de paranoia e extrema preocupação, que durou dias. A segunda relatou um sentimento de autodesprezo e desespero.

Mais uma vez, o egoísmo masculino nos traz consequências de atitudes que nem são nossas. Olha que absurdo: nós é que temos que lidar com as consequências das atitudes de vocês!

Essa postura é tão infantil, sabe? Vocês acham que a gente também não preferia transar sem camisinha? CLARO! Mas é uma questão de maturidade. De compreender que antes de qualquer coisa, vem a nossa saúde. Se você não concorda com isso, arranje alguém que pense como você, pois nós não temos a obrigação de lidar com suas decisões erradas. Você não pode obrigar uma outra pessoa a engolir as suas escolhas individuais contra a vontade dela. A única pessoa que tem lidar com as consequências das nossas atitudes somos nós mesmos.

GROW UP!

Já chega, machaiada! Vamos botar a mão na consciência!