quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Deixe o seu passarinho dentro da gaiola

 Esses dias estava conversando com umas amigas e uma delas foi contar uma história bem conhecida da maioria das mulheres solteiras: conheceu um cara num aplicativo, conversa vai, conversa vem e, no mesmo dia, quando ela menos esperava... BAM! Rola não solicitada. Seguido de vídeo se masturbando não solicitado. 

Eu queria dizer que essa história me chocou, mas a verdade é que já ouvi tantas vezes esse relato de diferentes mulheres que só conseguia pensar "oh, yeah, it seems about right".

Sinceramente, eu não sei o que se passa na cabeça de um cabra que faz isso. Primeiramente, não conhece mulher AT ALL, né? Nós não somos como vocês, que só de olhar para um órgão sexual já ficam em ponto de bala. Nossa excitação é um pouco mais complexa que isso. É cheiro, é toque, é conexão, é audição. Se você quer saber, quando você manda essas fotos, a gente só encaminha para as amigas para dar risada. 

Segundamente, o que te faz pensar que vamos ficar felizes em ver o pinto de uma pessoa que conhecemos há menos de 24h? Meu bem, se não foi solicitado, não envie. Uma coisa é você estar no meio de um sexting (sexo por mensagem), ou naquela vibe falando do assunto e aí tem todo um contexto para envio de fotos safadas; outra coisa é você num minuto perguntar em que a pessoa trabalha e no outro minuto mandar foto da sua jeba. Além de nada sexy, é invasivo e inconveniente. 

Pensando nessa perspectiva, resolvi fazer uma lista sobre outras coisas que as mulheres não solicitaram aos homens e vivem recebendo, além de rolas e punhetas virtuais:

- Opinião sobre nossos corpos;

- Opinião sobre nossa vontade de casar ou ter filhos;

- "Explicações" sobre o que é feminismo;

- Categorização em "pra comer" e "pra casar";

- Informações sobre o quanto "a sua ex era louca";

- Opiniões sobre nossas roupas ou maquiagem;


Tem mais coisa, mas por ora, deixo vocês com essa pequena reflexão sobre autocontrole. 

A gente vive em sociedade; se fizermos tudo o que queremos, o mundo ficará mais caótico do que já é. Segurem seus pintos dentro da cueca e só tirem para fazer xixi, lavar ou caso seja solicitado. Have some self-control, for God's Sake! 

Ah! Façam o mesmo com as outras coisinhas da lista também, não custa nada.




sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O nosso blog virou livro!



Olá, pessoal! Trago novidades quentes: o nosso blog virou livro

Para quem nos acompanha há muito tempo, sabe que ano passado fizemos 10 anos de Cama, Tradução e Banho! Que loucura, né? Nem parece que há uma década iniciamos essa jornada de tanto aprendizado, risadas e reflexões.  

Em comemoração ao nosso aniversário, lancei uma coletânea com alguns textos selecionados que considerei icônicos de toda a jornada desse blog. Eu colocaria muitos outros, mas o livro só podia ter 100 páginas. Uma pena, o que não falta aqui é assunto bom para gente espalhar! 

Os leitores mais antigos sabem que o blog começou com 5 escritoras e foi diminuindo até que eu sobrei sozinha. Por essa razão, coloquei textos só meus no livro. 

O livro é filho de um projeto lindo chamado "Frutificando" que dá a oportunidade de publicação para escritores novos. Através desse site Frutificando vocês conseguem comprar livros de escritores super talentosos (inclusive o nosso!) e também se inscrever para participar de um projeto, caso esteja a fim de publicar alguma coisa. 

Eu agradeço a todos os idealizadores e produtores desse projeto que nos ajuda a realizar o sonho da publicação! 

Então se você quer ter alguns dos nossos textos esquentando sua estante em casa ou presentear alguém, já sabe: entra no site do Frutificando e adquira já o seu! Eles entregam em todo o país!


segunda-feira, 22 de junho de 2020

VOCÊ tem direito sobre o MEU corpo?

Quando falamos por aí do desrespeito com o corpo da mulher, muitas pessoas têm a sua "opinião" sobre o que pode ser classificado como desrespeito ou não. Os homens tendem a relativizar essa coisa toda, pois cresceram em uma sociedade que os ensina que eles têm direito sobre nossos corpos. Não raramente passamos por situações constrangedoras como passarem a mão na nossa bunda, puxarem nosso cabelo, pedirem para nos conhecer já nos agarrando pela cintura, etc. Tudo isso parece besta, mas é uma tremenda violação da nossa individualidade.

E isso é só a ponta do iceberg, pois um cara que faz isso, que normalizou esse comportamento (que ele não aceitaria se fosse alguém fazendo com ele - principalmente se fosse outro homem), é capaz de fazer coisas muito piores.

Esse FDS escutei duas histórias que me fizeram refletir muito sobre como precisamos acabar com essa cultura escrota que nos expõe a tantas situações inaceitáveis.

A primeira história é de uma amiga que contou que conheceu um cara na balada. Eles ficaram e ela foi dormir na casa dele. No meio do ato sexual, ele aproveitou que ela estava de costas e tirou a camisinha, e ela só percebeu depois de um tempão.

A princípio, eu achei muito surreal, mas depois, pensando na linha toda da cultura, que acaba incentivando esse tipo de comportamento masculino, fiz um pequeno experimento. Perguntei num grupo com mais 4 amigas (sim, só 4) se já tinha acontecido isso com alguma delas. Dessa forma, eu teria uma noção se isso é uma prática recorrente entre os homens.

Prontamente uma delas disse que sim e relatou a seguinte história:

Ela estava ficando sério com um cara e a primeira vez que eles transaram, foi na loucura, dentro do carro, bêbados, e acabou rolando sem camisinha. Na segunda vez, ele veio querendo fazer sem de novo. Ela disse que não, que aquilo não aconteceria novamente, que foi um vacilo e que ela não queria mais assim. Ele insistiu, querendo fazer sem camisinha, mas ela não cedeu. Porém, no meio do sexo, ele aproveitou que ela estava de costas e tirou a camisinha sem informá-la.

Ao perceber, ela ficou muito chateada, confrontou-o e ele disse que "tirou porque estava incomodando". Ela pediu que ele a levasse para casa imediatamente. E sabe o pior disso tudo? Ela disse que se sentiu "suja, desprezada, um lixo" e morreu de chorar.

Gente, isso é errado de tantas formas diferentes! Como vocês homens não conseguem perceber a gravidade dessas atitudes?!

A primeira coisa que me choca é a falta de autocuidado. Não entendo como pessoas que têm a vida sexualmente ativa, principalmente sendo solteiros, não se preocupam com sua saúde sexual. Como vocês têm tanta certeza de que as pessoas que vocês ficam não tem doenças? Doença não tem cara, não, galera. Qualquer um pode contrair. Não dá para olhar para cara da pessoa e confiar que ela está limpa. Usar preservativo é cuidar de si mesmo, primeiramente. É claro que - não vamos ser hipócritas - às vezes a gente acaba deixando rolar sem camisinha, no calor do momento, mas isso deveria ser uma exceção, e não uma prática comum. É perigoso para todo mundo.

Segundo, o que aconteceu nessas histórias configura ABUSO SEXUAL. O consentimento foi COM camisinha. Se você ultrapassou essa linha, você violou a outra pessoa. SIM, isso também é uma forma de estupro. Estupro é sexo sem consentimento. Se ela não consentiu sem camisinha e você não respeitou, você estuprou. Parece que vocês têm dificuldade de compreender os limites! O seu direito acaba quando começa o do próximo. Se você não quer se proteger é problema seu, mas não tem direito de expor a outra pessoa a sua negligência.

As duas histórias tem antagonistas bem diferentes: um é um desconhecido de uma transa casual. O outro era alguém conhecido, fixo, no qual a minha amiga achou que poderia confiar. Isso mostra bem que não importa a relação que eles têm com a outra pessoa, eles se acham no direito de tomar decisões sobre os nossos corpos.

E por último, você desrespeita a pessoa como ser humano. O sexo é um ato conjunto, então tudo o que acontecer deve ser consentindo por todas as partes. Tirar a camisinha sem informar a outra pessoa é o cúmulo do menosprezo pelo outro. Você não se sentiria violado caso sua parceira fizesse algo sem o seu consentimento? Por que é tão complicado se colocar no lugar do outro? É só a sua vontade que conta?

E aí, além da exposição física ao perigo de uma doença sexualmente transmissível ou uma gravidez indesejada, surgem as consequências psicológicas. A primeira pessoa a me contar a história, relatou um sentimento de paranoia e extrema preocupação, que durou dias. A segunda relatou um sentimento de autodesprezo e desespero.

Mais uma vez, o egoísmo masculino nos traz consequências de atitudes que nem são nossas. Olha que absurdo: nós é que temos que lidar com as consequências das atitudes de vocês!

Essa postura é tão infantil, sabe? Vocês acham que a gente também não preferia transar sem camisinha? CLARO! Mas é uma questão de maturidade. De compreender que antes de qualquer coisa, vem a nossa saúde. Se você não concorda com isso, arranje alguém que pense como você, pois nós não temos a obrigação de lidar com suas decisões erradas. Você não pode obrigar uma outra pessoa a engolir as suas escolhas individuais contra a vontade dela. A única pessoa que tem lidar com as consequências das nossas atitudes somos nós mesmos.

GROW UP!

Já chega, machaiada! Vamos botar a mão na consciência!



sexta-feira, 15 de maio de 2020

Carentena

Olá, queridos leitores! O último post foi antes de começar a nossa tão detestada quarentena! Que vergonha dessa escritora relapsa!

Em minha defesa, o volume de trabalho tem sido maior que nunca, e bom, sem sair de casa, teoricamente, não está acontecendo muita coisa para contar né?

Só que junto com a quarentena chegou também a inevitável CARENTENA, minha gente. E eles estão de volta com as piores desculpas esfarrapadas e falta de tato para paquera. Eles. Eles mesmos. Os homens solteiros sem-noção.

Vou mostrar dois para vocês hoje. Mostrar, sim. A gente gosta é de print, né?

Sério, acho que vou lançar um curso online para ensinar esses moços a conversar porque tá difícil demais. Eu não sei se rio ou choro.

Vamos aos casos!

CASO 1: Esse rapaz super simpático (?) que conheci na igreja e literalmente só falo "oi" e "tchau", um dia desses resolveu me abordar no Whatsapp (que pegou no grupo) e puxar um assunto nada a ver. Eu achei estranho, mas respondi normalmente. Pouco depois, ele admitiu que só tinha mandado aquela mensagem para ter uma desculpa. E aí, my friends, vocês vão ver a "conversa" mais doida dos últimos tempos.


Eu achei que fui muito educada e paciente para o nível de sandice que esse rapaz apresentou. De vez em quando chega um "linda" nos meus stories, mas a gente continua sem responder, porque né... não tem propósito de tentar conversar com uma pessoa que parece um chimpanzé tentando se comunicar com seres humanos.

E aí ontem apareceu um outro mocinho, que eu nunca vi na vida, puxando assunto no Instagram. O meu Instagram é fechado, então ponderei bastante se eu ia responder. Olhei nos amigos em comum e ele tinha uma das minhas melhores amigas. Já mandei logo um print perguntando quem era e ela disse que era um cara que ela já tinha ficado duas vezes. Confesso que já fui meio armada porque se ele já tinha ficado com ela, eu provavelmente não ia dar bola pra ele. Mas aí... aí ele veio com umas ideias muito tortas:


Olha... eu admito que sou chata. Às vezes eu pego no pé mesmo. Mas vai, ele CLARAMENTE sugeriu furar a quarentena. Eu não estou ficando doida. E aí quando não colou, quis tirar o dele da reta. Se você vai propor uma idiotice, pelo menos tenha coragem de admitir o que está propondo, né? Porque as coisas que ele falou não explicam nada do que ele disse sobre "compartilhar a quarentena". E aí ele foi só aumentando o nível de babaquice mesmo.

Então é isso. A CARENTENA está batendo à porta de todos. Mas nem todo mundo sabe aproveitar bem as oportunidades, né?

Você tem uma história boa de CARENTENA? Se quiser vê-la publicada aqui, só deixar um comentário que a gente se comunica!

Até a próxima, pessoal! E FIQUEM EM CASA!



domingo, 8 de março de 2020

Sororidade para quê?

Puta. Vadia. Piranha. Vagabunda.

Toda vez que nos chamamos assim, uma fada morre.

A palavra sororidade significa união entre as mulheres. Rede de apoio, de suporte, de irmandade.

Desde o início dos tempos, um ambiente de competição foi incitado entre nós e crescemos nos enxergando não como irmãs, não como iguais - apesar de diferentes! -, mas como rivais. E como isso nos prejudica e faz mal!

Olhamos constantemente umas para as outras como se estivéssemos em uma eterna disputa de quem é a mais bonita, a mais gostosa, a mais competente, a melhor. E isso nos aproximou do machismo mais do que imaginamos. Quando olhamos para uma outra mulher com ares de superioridade, estamos reproduzindo um comportamento inventado por eles para deslegitimar nosso direito de escolha e nosso poder de decidir como viver, como usar nosso corpo, como viver nossa sexualidade, como agir em tudo.

Foram os homens que cagaram regra sobre como devemos nos comportar. Foram eles que inventaram essa história de que eles tem direito de agir de uma determinada forma, mas que se fizermos o mesmo, não seremos dignas de respeito. E acreditamos. Por isso vivemos julgando e inferiorizando mulheres que têm comportamentos que não concordamos ou que, mais ainda, a sociedade patriarcal nos ensinou estar errado.

A única presidente mulher que esse país teve, quando criticada, era chamada de vadia e vagabunda. Quando o preço da gasolina subiu, confeccionaram adesivos onde gasolina saíam de sua vagina. É o homem sexualizando e diminuindo a mulher à uma suposta função sexual. Se sentiram no direito de usar seu corpo feminino para criticar seu governo. Enquanto isso... A gasolina hoje está o dobro do preço daquela época, mas você não vê o atual presidente, homem hétero cis, com gasolina saindo de seu ânus em adesivos. Será que você não enxerga machismo nisso?

Qualquer mulher sexualmente mais ativa ou mais explícita virou piranha. Quando um homem pega todo mundo, ele é garanhão, o gostoso. Se for mulher, é vagabunda.

Chamamos mulheres com as quais não convivemos de vadia porque ela postou uma foto sensual. Não conhecemos sua história, suas lutas, suas dores, mas nos sentimos no direito de julgá-la porque ela usou seu corpo como ela mesma decidiu. E que coisa, o corpo é dela, por que nos acharmos dignas de dizer como ela deve se comportar ou não? Por que achar que é melhor que outra mulher só porque você é mais discreta em sua sexualidade? Você acha que isso veio de você, verdadeiramente? Ou consegue reconhecer que te convenceram disso?

Quando um marido trai sua mulher, sempre quem leva a surra e é chamada de vagabunda é a amante. Alguém já parou para pensar que quem tem o compromisso com você é ele? Que quem violou votos ou compromisso foi ele? Que o mau caráter maior da história é ele? Não que ela esteja certa, mas o fato é que o fardo maior sempre recai sobre a mulher. E ainda tem gente que diz que traição está no DNA do homem, para justificar suas escapadas. "É assim mesmo!", dizem. E dessa forma, seus comportamentos boçais vem sendo justificados desde sempre.

Isso veio de lá. É interessante para eles que continuemos a nos ver como competição, porque se percebermos o que podemos fazer quando nos unirmos, a vida mole deles ACABA. Sabe por que os homens tem tudo o que querem? Porque são unidos. Porque tem colaborativismo. E se tem algo que podemos aprender com eles, é isso.

SO-RO-RI-DA-DE. É um bicho tão novo, que quando escrevemos ainda fica sublinhado de vermelho. O dicionário não conhece. Muitas mulheres também não. Não sabem o poder de olhar para alguém que passa pelos mesmos apuros que você com olhos de compreensão, compaixão e respeito à diversidade.

Essa é a lição desse 08/03//2020. Aprender a olhar para outra mulher e reconhecer nela as mesmas lutas que você está lutando. Os mesmos medos, inseguranças, privação de direitos, falta de oportunidade, injustiça, violência, violação. Aquela mulher não é sua inimiga. Ela sofre as mesmas coisas que você por ser mulher. Vamos nos unir de verdade ao invés de dar as mãos só para quem se comporta como nós?

FELIZ DIA DAS MULHERES! E QUE HAJA SORORIDADE!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Ser mulher e querer sair para se divertir é...

Dia desses eu e minhas amigas do trabalho marcamos um happy hour super light, super família. Fomos a um karaokê num rolê bem alternativo, onde uma das meninas até levou os dois filhos.

Ao chegarmos, já fitei um cara bem estranho no balcão bebendo. Ele me incomodou já de cara porque nos secou dos pés à cabeça quando entramos. Meu olho treinado para pervert creeps já logo pegou o tarado no meu radar.

Tudo bem, sentamos, começamos a comer, conversar, dançar. E ele lá, bebendo sem parar no balcão, um tiozão na casa dos 60 e poucos anos, claramente sozinho e começando a ultrapassar a linha do aceitável da bebida.

Estávamos no maior papo, quando de repente ele levanta e acha apropriado ir fazer uma "dancinha seduzente" (uma tonelada de sarcasmo aqui) na nossa mesa. Todas o olharam com reprovação e ele continuava achando que tava abafando.

Educadamente, eu pedi que se retirasse da nossa mesa, pois não estávamos achando legal. Ele foi para o meu lado e disse: "agora que eu quero ouvir essa conversa mesmo!" e continuou lá rindo, se achando super engraçado e sedutor, até que eu repeti:

- Moço, você pode, por favor, se retirar? Nossa conversa é particular e você está sendo muito inapropriado.

Ele saiu com cara de cão abandonado e eu não conseguia parar de observar como ele olhava para as mulheres. QUALQUER MULHER que aparecia na frente dele, ele olhava com aquela cara de que vai te atacar a qualquer momento e eu comecei a temer pela integridade de todas ali.

Havia um grupo de 3 meninas conhecidas na mesa de trás. Após ser rejeitado na nossa mesa, percebi que ele foi à mesa delas fazer o mesmo número. Até desconcentrei da conversa com minha amiga, porque a presença dele estava obviamente incomodando a todas, mas as meninas não tiveram coragem de expulsá-lo e ficaram só olhando com cara de ódio, na esperança de ele se tocar e sair. Novamente senti a necessidade de interferir. Me levantei e disse:

- Moço, de verdade, você está sendo MUITO inconveniente!!

As meninas em coro, concordaram comigo:

- Está mesmo!

Eu continuei:

- Dá para você sair daqui e parar de incomodar, por favor?

Ele saiu, relutante, e eu já não conseguia mais relaxar naquele ambiente. Peguei um papel e escrevi para a gerente que o homem estava assediando todas as mulheres do local. Ela me respondeu que uma vez ele foi até expulso desse mesmo bar porque ficava assediando as mulheres e fazendo gestos obscenos para elas. Me disse que eu podia ficar tranquila que ele já estava pagando a conta e indo embora. Como e por qual razão eles permitiram sua volta lá, é que não ficou claro para mim.

Não estamos seguras em lugar algum. A nossa realidade é que um homem aleatório se sente à vontade para se comportar como um bicho solto na selva, nos tratar como um pedaço de carne e não respeitar quando alguém rejeita suas investidas indesejadas.

Eu estou sem palavras para terminar esse post, porque estou exausta de ter que combater esse tipo de animal que é tão comum por aí. A gente não devia passar por isso diariamente. A gente não deveria ter que sofrer assédio quando estamos tentando nos divertir. Não deveríamos ter que dizer o óbvio para um homem que sabe muito bem o que está fazendo.

Estamos cansadas. Se não sabe se comportar como ser humano, então fique preso numa jaula. Não somos obrigadas a perdermos a paz por conta de um neandertal que não tem o mínimo de auto-controle.

PELO AMOR DE DEUS, fique em casa!






domingo, 16 de fevereiro de 2020

Será que você já foi estuprada e não sabe?

- Saí com um cara de uma festa e fomos para o apartamento dele. Eu nem queria transar, só ia dar uns pegas e ir pra casa depois. Quando chegamos lá, por algum motivo, a porta não abria. Ele baixou minha saia ali mesmo no corredor e eu disse que não ia rolar, que eu não queria. Ele sugeriu que fôssemos para o carro dele. Eu disse que queria ir pra casa e ele disse que me deixava. Entramos no carro dele, e ele colocou o protetor de sol. Pulou em cima de mim, eu disse que não ia rolar, ele respondeu que ia sim. Eu fiquei pondo a mão para ele não enfiar, mas ele enfiou.

- Você foi estuprada, você sabe, né?

- An??

Pois é, gente. E foi assim que a minha amiga descobriu que tinha sido estuprada e eu vi a necessidade de falar um pouco sobre estupro, porque a nossa visão sobre ele é bem limitada.

Para muitos, estupro é só quando um maluco te arrasta para o mato e te força a transar. Mas o estupro tem muitas outras vertentes. É preciso manter na cabeça bem claro que qualquer tipo de sexo sem consentimento é estupro, sim. Não importa se você está ficando com a pessoa, namorando, casada, se já está sem roupa, se estava se pegando. Se na hora H você não quiser e a outra pessoa forçar, você está sendo estuprada.

Eu sei que é difícil aceitar isso, eu já passei por essa revelação.

Uma vez eu ficava com um cara e saímos de uma festa bêbados. Eu mal conseguia ficar em pé, estava absolutamente inconsciente, mas me lembro direitinho de falar para ele que queria ir para casa e esse pedido ser totalmente ignorado. Ele me levou para casa dele e eu só lembro de flashes dele transando comigo e eu sem conseguir reagir, até porque ele era um cara bem forte e grande.

Demorou anos para que eu entendesse que naquele dia eu fui estuprada pelo meu ficante. Ele tirou vantagem da minha condição e me violou.
Foram necessárias muitas leituras, ouvir muitos depoimentos, e finalmente, o que me derrubou, foi o clipe da Lady Gaga "Till it happens to you", que mostra várias cenas de estupro - uma delas onde o cara se aproveita de uma menina que estava inconsciente. Eu chorei quando assisti porque eu me vi ali e tomei consciência de como o estupro realmente funcionava.

A verdade é que muitas de nós fomos estupradas sem saber.
Tudo isso porque não consideramos estupro quando gostamos da pessoa ou temos tesão por ela. A gente mesmo se culpabiliza pelo excesso de álcool, provocações sexuais ou coisas parecidas. É necessário compreendermos que estupro é muito maior do que imaginamos e fomos ensinadas, e começarmos a ficar mais atentas aos sinais. SEXO SEM CONSENTIMENTO É ESTUPRO E PONTO FINAL.

Espero também que os homens comecem a pensar mais nisso. Quantas vezes você já estuprou alguém? É, é isso mesmo. Pesado? Sim. E tem que ser. Você não é muito diferente do cara que arrasta uma mulher desconhecida e estupra, não.
Quantas vezes você já forçou a barra? Pôs a mão na menina mesmo quando ela relutava, achando que ela fazia "cu doce"?
Quantas vezes você já insistiu para transar com sua namorada/esposa/peguete mesmo quando ela dizia não querer?

O nosso corpo é propriedade nossa. Eu não devo nada a você. Se eu quiser desistir na hora, eu posso. Eu não tenho obrigação nenhuma de abrir meu corpo para você quando você bem entender. O consentimento é mandatório, eu sou dona do meu corpo. Não é porque eu tenho uma relação com você ou porque te dei uns pegas que eu sou obrigada a ir até o fim. Essa decisão é apenas minha. Está mais que na hora de todos os homens entenderem isso de uma vez por todas.

E a gente fica aqui desse lado, denunciando essa cultura monstruosa e ajudando umas às outras a aprender cada vez mais um pouco sobre como a misoginia está presente no nosso dia-a-dia. Vamos à luta!

sábado, 4 de janeiro de 2020

A nossa suposta missão de transformar os homens em... homens


Olhem bem para essa imagem e seus detalhes. Tem tanta coisa errada nela que eu mal sei por onde começar.

Primeiramente, o que é uma mulher feminina? Desde o começo do movimento feminista a discussão sobre feminilidade começou e até hoje não ficou muito claro na cabeça de muita gente que ser mulher não tem nada a ver com o modo de se vestir, falar, andar etc. Aliás, a própria expressão "ser feminina" é uma total criação da sociedade conservadora para te convencer de que para ser mulher você precisa ser delicada, falar baixo, usar só vestidos e saias, maquiagem, jóias, enfim, parecer uma princesa da Disney. Mais uma forma de exercer poder e controle sobre a sua vida. A frase "Feminina sim, feminista nunca" é espalhada por aí como uma ideia de que as mulheres feministas são todas iguais: não depilam, tem cabelo Joãozinho, só usam roupa larga, bebem cerveja e amassam a lata, arrotam em público, odeiam maquiagem. Tentam te convencer disso e muitos acreditam. O movimento feminista é sobre escolhas. E isso implica também o seu estilo pessoal de comportamento e vestimenta. Faça como quiser. É disso que estamos falando. Você achar que não existem feministas que amam maquiagem, têm zero pêlos no corpo, são delicadas etc, é prova cabal de que você realmente não conhece o feminismo. É pura ignorância sobre o assunto.

A segunda coisa que me chama atenção é a imagem de uma moça segurando um bebê com todo amor do mundo. Como se, para ser mulher de valor, para ser feminina, você precisasse necessariamente ter filhos. É preciso separar a mulher da obrigação de reproduzir. Nós não somos apenas potenciais mães. Existem muitos sonhos dentro de nós que podem ou não incluir filhos. Muitas mulheres têm filhos sem nem pensar se REALMENTE querem, porque cresceram com essa expectativa sobre suas cabeças e de repente não reproduzir parece uma ideia muito absurda. Acreditem, vocês tem escolha. Você é um ser humano completo. Não ter um filho não vai te deixar incompleta. O que nos deixa incompletas é abrir mão de sonhos reais e viver uma vida frustrada. Tenha filhos ou não, SE QUISER. Muitas mulheres feministas têm filhos e os amam com o mesmo amor de mulheres que não se consideram feministas. Achar que feministas são contra o ato de reproduzir é mais um traço da ignorância sobre o movimento.

O terceiro ponto, claro, são essas frases absurdas de que "mulher transforma homem" e de que "homem vira homem diante de uma mulher feminina". Porque essa ideia se espalhou por aí, encontramos tantos homens infantis aos 30. Homens que não se vêem na obrigação de amadurecer até que encontrem uma esposa - ou seja, uma segunda mãe - que diga para eles o que tem que fazer para deixar de ser menino e virar homem. Desde pequenas ouvimos que as meninas amadurecem mais rápido. Isso não é biológico. Isso é social e só existe porque é exigido muito mais comportamentos responsáveis de meninas do que de meninos, desde pequenos. As meninas sempre tem que ter letra bonita, caderno organizado, material impecável, notas boas, brinquedos bem cuidados, quarto arrumado, não arrotar, sentar com a perna fechada "que nem mocinha", ajudar nas tarefas domésticas, e por aí vai. A lista é infinita. Sem ter responsabilidades, não é de se estranhar que homens demorem muito mais para amadurecer do que mulheres, não é mesmo? O amadurecimento de qualquer pessoa passa diretamente por ter que lidar com responsabilidades, com situações adversas, com experiências diferentes, com a necessidade de enfrentar problemas. E se os nossos meninos não são expostos a isso, continuaremos a ter uma sociedade com moleques de 25, 30, 40 ou 50 anos.

Outro problema dessas frases é o peso nas costas das mulheres. Essa síndrome de Mulher Maravilha que acabamos abraçando como missão. Quantas de nós já conhecemos um cara estragado e achamos que, com nosso amor, carinho e dedicação, iríamos transformá-lo num príncipe? Provavelmente todas nós passamos por isso alguma vez na vida. Quase que 100% das vezes o resultado é um belo par de chifres na cabeça, um relacionamento abusivo ou algo parecido. Nós não somos mecânicas para consertar carro quebrado. Nós merecemos um carro zero. E no momento em que compreendermos que não é função de ninguém arrumar a vida do outro, vamos parar de aceitar menos do que merecemos. Entenda: ninguém conserta ninguém além de si mesmo. Se a pessoa quer mudar, evoluir, melhorar, amadurecer, é responsabilidade dela. Estar cercado de pessoas que apoiem, que incentivem e motivem é ótimo, mas nenhuma mudança vai ocorrer se a própria pessoa não quiser e não se esforçar. Tem que partir dela, independente de gênero ou orientação sexual. Essa história de transformar homem é só mais uma responsabilidade que querem atirar para nós, para que os homens mais uma vez possam se eximir das consequências dos seus atos e as mulheres continuem sendo a grande fonte de culpa da sociedade.

Depois de tantas reflexões possíveis sobre uma única imagem com frases aparentemente inofensivas, é inevitável não me preocupar com o rumo em que as relações tomam ainda hoje, no século XXI. É tão antiquado, tão inapropriado, tão sem sentido esperar que o outro tenha a missão de me curar das minhas infantilidades, que eu me pergunto se algum dia vamos de fato alcançar a igualidade de gênero pela qual tanto lutamos. Se até em nossas próprias vidas pessoais ainda há tanto a se alcançar, quando vamos conquistar direitos sociais mais justos? Conquistaremos?

domingo, 22 de dezembro de 2019

Um perigo chamado carência

Depois de estar solteira por tantos anos, chegamos àquela encruzilhada entre o não conseguir se envolver com tanta facilidade e o acabar se envolvendo com qualquer um por pura carência. Já até escrevi aqui sobre o desafio de não ficar totalmente cética, mas também não forçar a barra só para não ficar sozinha.

Tem dias que é super fácil ser a sensata da vida e agir com maturidade, mas de tempos em tempos, a dona carência chega a um nível perigoso onde a gente corre sérios riscos de ignorar sinais importantíssimos em nome de viver um romancezinho sequer, nem que seja só para tirar a poeira do coração.

Foi aí que eu reencontrei um rapaz que havia sido apaixonado por mim na época da escola e quase troquei os pés pelas mãos. Todo aquele frisson de adolescente de alguma forma reapareceu dentro de nós e de repente estávamos nos falando todos os dias. Eu, solteira há mais de 6 anos, sem filhos. Ele, recém-separado de um relacionamento de 8 anos com uma mulher sabidamente instável e que não aceita o fim do casamento, com o adicional de 3 filhos. Parecia que a novela mexicana já estava escrita, e mesmo lendo o script antes de beijá-lo, eu acabei caindo nessa furada.

Por que será que carência deixa a gente cego tal qual quando estamos apaixonados por alguém? Por que a gente começa a relativizar tudo e relevar algumas coisas importantes, ouvindo seu cérebro dizer "ah, mas ele te trata tão bem, ele foi tão apaixonado por você, ele é uma pessoa tão bacana!"?

The thing is: não é sobre ser ou não ser bom. É sobre não ser bom para você. E pronto.

Ficar com um cara numa vibe super nostálgica e romântica e no outro dia ser bombardeada pela ex do cara (que tem todas as senhas das redes sociais dele - e eu nunca vou entender essa falta de privacidade que certos casais confundem com confiança!) é puro sinal de que é uma cilada, Bino. Por mais que saibamos da instabilidade emocional da moça (o que, acreditem, para mim é bem difícil de concordar, como feminista que sou), até onde o que ela diz é mentira? E mais, até onde o que ela diz vai passar reto e não te afetar em nada? Sou assim tão evoluída?

A verdade é que a mulher já foi denunciada por ameaçar a última tentativa de romance do ex-marido de morte e inclusive condenada a pagar indenização e prestar serviços comunitários. Ela jogou roupas e livros dele fora. Ela furou os 4 pneus de seu carro e jogou xixi nos bancos. Ela usa os filhos como forma de ameaçá-lo. E toda vez que ele chega perto de mim, ela descobre e me manda mensagem inventando alguma coisa para que eu desconfie de que tudo o que ele fala e faz é mentira.

Onde vou parar me envolvendo em uma história tão maluca, sendo enroscada em uma relação tão tóxica? Serei eu envenenada também?

E foi aí que o lado racional do meu cérebro começou a berrar, porque não importa que ele me trate como uma rainha, me faça sentir desejada, admirada ou passível de ser amada. Essa confusão é grande demais pelos poucos benefícios recebidos.

Eu mereço sim tudo isso que ele estava me fazendo sentir, mas como diria Cazuza, eu quero a sorte de um amor tranquilo. Sentir tudo isso e no dia seguinte sentir uma tensão absurda, um medo de estar sendo vigiada a cada passo e pavor de a qualquer momento sofrer alguma tipo de agressão física ou psicológica faz esse lance perder todo o valor.

Eu sinto que está na hora de meu coração voltar a ter mais do que apenas a função de bombear sangue, mas quando isso acontecer, vai ser com alguém que me faça sentir segura o tempo todo e não apenas enquanto está fisicamente na minha presença. Valeu a tentativa, universo, mas eu quero (e mereço!) muito melhor que isso.

sábado, 26 de outubro de 2019

Sexo frágil ou super-heroínas

Estive pensando nos esteriótipos que a sociedade criou para as mulheres. É óbvio que poderia passar horas fazendo uma lista de comportamentos bem específicos que exigem de nós no trabalho, em casa, na cama, enquanto mãe, irmã, esposa, namorada. Além dos padrões de beleza que nos impõem todos os dias, a juventude eterna que nos é cobrada e outras infinitas variedades que fazem do "ser mulher" algo tão complexo e muitas vezes sofrido.

Porém, hoje eu pensava especialmente sobre dois esteriótipos bem gerais: o que criaram para nós desde o começo dos tempos, o de sermos o SEXO FRÁGIL, em oposição ao que nós mesmas acabamos criando para nós, possivelmente para combater esse outro, o de sermos SUPER-HEROÍNAS.

O de sexo frágil sempre incomodou a maioria de nós, porque foi - ou é - usado pelos homens para exercer machismo sobre nós. A ideia de que precisamos de um homem para sermos felizes implica uma fragilidade, onde a mulher é emocionalmente e financeiramente dependente do sexo masculino. Ainda hoje, embora em uma escala bem menor, podemos encontrar mulheres que passam a vida procurando um marido, como se a única fonte de felicidade de sua vida fosse o casamento ou que um marido seria a garantia de uma vida próspera e feliz. Muitas famílias ainda endossam essa ideia estapafúrdia e se preocupam mais se a filha está encalhada do que com sua formação acadêmica ou saúde; e de repente encontramos várias mulheres infelizes, não-realizadas, presas a relações abusivas ou sem a menor condição de se impor por ser de alguma forma dependente de alguém do sexo masculino (normalmente o marido, às vezes o pai). Dito tudo isso, acredito que esse esteriótipo esteja caminhando para uma extinção - se tudo der certo! -, pois hoje muito se fala sobre independência feminina e quase todas nós já entendemos que independência é liberdade. Independente da mulher se considerar feminista ou não, quase nenhuma quer depender de alguém.

Para ser sincera, o esteriótipo de super-heroína anda me preocupando mais. Não me levem a mal, somos de fato heroínas. Não tem como não ser, diante de tudo o que passamos diariamente. Mas eu começo a enxergar várias consequências desse "apelido carinhoso" para as mulheres. Crescemos ouvindo, todo dia 08/03 em especial, que as mulheres são guerreiras, fortes, batalhadoras. Que aguentamos tudo, coisas que os homens nunca aguentariam. Vocês conseguem ver o perigo que isso representa na sociedade atual?

Não há espaço para a mulher ser quem ela é no momento em que ela quiser ou puder ser. Ou ela tem que ser uma flor delicada frágil ou ela tem que ser sempre a foda que tudo suporta.

Olhe para sua mãe. Qual a primeira palavra que você usaria para defini-la? Eu usaria FORTE. E aposto que muitos de vocês também.

Nossas avós foram da geração do sexo frágil. Casavam cedo, casamentos arranjados muitas vezes. A maioria não tinha emprego para ficar em casa cuidando dos filhos, o que as tornavam escravas de seus relacionamentos, aprisionadas a seu provedor, porque não teriam para onde ir ou o que comer, caso resolvessem se separar. Dessa forma, elas se submetiam a qualquer coisa.

As nossas mães vieram para abrir a caixa das heroínas. Jornada tripla de trabalho: trabalhando fora, cuidando da casa e dos filhos, estudando para conseguir algo melhor. Várias mães solteiras. Muitas começaram do nada e hoje tem uma condição confortável por conta dessa loucura de até se anular para conseguir o mínimo para sua família. Ela se superou, ela é uma guerreira. Admiram sua força.

Já pensou em quanto ela já sofreu calada por não querer que ninguém soubesse que ela também era fraca às vezes? Que ela queria ajuda, que tinha vontade de desistir? Nunca vimos as lágrimas que as nossas mães choraram escondidas. Quantas vezes perguntamos "O que foi?" e ela respondia "Nada não"? O fato é que elas precisavam passar a imagem de "sou forte o tempo todo, eu aguento qualquer coisa". Não seria essa uma outra forma de prisão?

E nossa geração também vem repetindo isso, de querer suportar tudo, porque as pessoas acreditam que nós somos guerreiras o tempo todo. Se alguma coisa da minha vida sair um pouco do padrão, então já começam a dizer que eu não estou bem. Não tem nada de errado comigo! Eu apenas sou um ser humano. Que tem momentos fortes e frágeis. Que gosta de ser vista como inspiração de força sim, mas que também precisa de ajuda e de uma palavra de carinho. Que tem vontade de jogar tudo para o alto, que comete erros e acertos. Que um dia é a determinação em pessoa e no outro dia não consegue levantar um dedo para nada. Simplesmente humana. Nenhuma guerreira invencível de Games of Thrones.

Me preocupa que desde pequena as meninas aguentem tudo. Que sofram caladas, que seja ensinado a elas que "se acostumam, vida de mulher é difícil mesmo"; que a sociedade diga que elas vão necessariamente amadurecer mais rápido que os meninos, porque é assim mesmo. ISSO NÃO É BIOLÓGICO. O amadurecimento das meninas vem antes porque isso é exigido delas desde cedo. Meninas tem que se comportar, fechar as pernas, falar baixo, ter a letra bonita, o material bem-cuidado, o caderno caprichado, as notas boas. Em que escala isso também é cobrado dos meninos? Em uma muito menor. Gente, acreditem: NADA É POR ACASO.

Quero que minhas alunas e minha sobrinha saibam que elas são fortes, sim, mas que elas não tem que aguentar tudo. Que elas podem pedir ajuda e que às vezes serão frágeis e que não tem nada de errado com isso. Que o ser humano é complexo e a vida não é mole e que não tem problema de vez em quando você se sentir uma merda. Isso não define quem você é e nem tira o seu valor.

Esse post é uma reflexão sobre em que nível estamos nos permitindo, enquanto mulheres, sermos um pouco de tudo o que todo ser humano é. A gente não tem que aguentar tudo nem ficar o tempo todo preocupada com a imagem que estamos passando. E nem depender de ninguém, para estar pronta para cair fora quando e se for necessário.

Nem sempre 8, nem sempre 80, mas todos os números do meio também. Você não é só frágil nem só forte. Você só é uma pessoa. Olha que loucura?!