domingo, 8 de março de 2020

Sororidade para quê?

Puta. Vadia. Piranha. Vagabunda.

Toda vez que nos chamamos assim, uma fada morre.

A palavra sororidade significa união entre as mulheres. Rede de apoio, de suporte, de irmandade.

Desde o início dos tempos, um ambiente de competição foi incitado entre nós e crescemos nos enxergando não como irmãs, não como iguais - apesar de diferentes! -, mas como rivais. E como isso nos prejudica e faz mal!

Olhamos constantemente umas para as outras como se estivéssemos em uma eterna disputa de quem é a mais bonita, a mais gostosa, a mais competente, a melhor. E isso nos aproximou do machismo mais do que imaginamos. Quando olhamos para uma outra mulher com ares de superioridade, estamos reproduzindo um comportamento inventado por eles para deslegitimar nosso direito de escolha e nosso poder de decidir como viver, como usar nosso corpo, como viver nossa sexualidade, como agir em tudo.

Foram os homens que cagaram regra sobre como devemos nos comportar. Foram eles que inventaram essa história de que eles tem direito de agir de uma determinada forma, mas que se fizermos o mesmo, não seremos dignas de respeito. E acreditamos. Por isso vivemos julgando e inferiorizando mulheres que têm comportamentos que não concordamos ou que, mais ainda, a sociedade patriarcal nos ensinou estar errado.

A única presidente mulher que esse país teve, quando criticada, era chamada de vadia e vagabunda. Quando o preço da gasolina subiu, confeccionaram adesivos onde gasolina saíam de sua vagina. É o homem sexualizando e diminuindo a mulher à uma suposta função sexual. Se sentiram no direito de usar seu corpo feminino para criticar seu governo. Enquanto isso... A gasolina hoje está o dobro do preço daquela época, mas você não vê o atual presidente, homem hétero cis, com gasolina saindo de seu ânus em adesivos. Será que você não enxerga machismo nisso?

Qualquer mulher sexualmente mais ativa ou mais explícita virou piranha. Quando um homem pega todo mundo, ele é garanhão, o gostoso. Se for mulher, é vagabunda.

Chamamos mulheres com as quais não convivemos de vadia porque ela postou uma foto sensual. Não conhecemos sua história, suas lutas, suas dores, mas nos sentimos no direito de julgá-la porque ela usou seu corpo como ela mesma decidiu. E que coisa, o corpo é dela, por que nos acharmos dignas de dizer como ela deve se comportar ou não? Por que achar que é melhor que outra mulher só porque você é mais discreta em sua sexualidade? Você acha que isso veio de você, verdadeiramente? Ou consegue reconhecer que te convenceram disso?

Quando um marido trai sua mulher, sempre quem leva a surra e é chamada de vagabunda é a amante. Alguém já parou para pensar que quem tem o compromisso com você é ele? Que quem violou votos ou compromisso foi ele? Que o mau caráter maior da história é ele? Não que ela esteja certa, mas o fato é que o fardo maior sempre recai sobre a mulher. E ainda tem gente que diz que traição está no DNA do homem, para justificar suas escapadas. "É assim mesmo!", dizem. E dessa forma, seus comportamentos boçais vem sendo justificados desde sempre.

Isso veio de lá. É interessante para eles que continuemos a nos ver como competição, porque se percebermos o que podemos fazer quando nos unirmos, a vida mole deles ACABA. Sabe por que os homens tem tudo o que querem? Porque são unidos. Porque tem colaborativismo. E se tem algo que podemos aprender com eles, é isso.

SO-RO-RI-DA-DE. É um bicho tão novo, que quando escrevemos ainda fica sublinhado de vermelho. O dicionário não conhece. Muitas mulheres também não. Não sabem o poder de olhar para alguém que passa pelos mesmos apuros que você com olhos de compreensão, compaixão e respeito à diversidade.

Essa é a lição desse 08/03//2020. Aprender a olhar para outra mulher e reconhecer nela as mesmas lutas que você está lutando. Os mesmos medos, inseguranças, privação de direitos, falta de oportunidade, injustiça, violência, violação. Aquela mulher não é sua inimiga. Ela sofre as mesmas coisas que você por ser mulher. Vamos nos unir de verdade ao invés de dar as mãos só para quem se comporta como nós?

FELIZ DIA DAS MULHERES! E QUE HAJA SORORIDADE!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Ser mulher e querer sair para se divertir é...

Dia desses eu e minhas amigas do trabalho marcamos um happy hour super light, super família. Fomos a um karaokê num rolê bem alternativo, onde uma das meninas até levou os dois filhos.

Ao chegarmos, já fitei um cara bem estranho no balcão bebendo. Ele me incomodou já de cara porque nos secou dos pés à cabeça quando entramos. Meu olho treinado para pervert creeps já logo pegou o tarado no meu radar.

Tudo bem, sentamos, começamos a comer, conversar, dançar. E ele lá, bebendo sem parar no balcão, um tiozão na casa dos 60 e poucos anos, claramente sozinho e começando a ultrapassar a linha do aceitável da bebida.

Estávamos no maior papo, quando de repente ele levanta e acha apropriado ir fazer uma "dancinha seduzente" (uma tonelada de sarcasmo aqui) na nossa mesa. Todas o olharam com reprovação e ele continuava achando que tava abafando.

Educadamente, eu pedi que se retirasse da nossa mesa, pois não estávamos achando legal. Ele foi para o meu lado e disse: "agora que eu quero ouvir essa conversa mesmo!" e continuou lá rindo, se achando super engraçado e sedutor, até que eu repeti:

- Moço, você pode, por favor, se retirar? Nossa conversa é particular e você está sendo muito inapropriado.

Ele saiu com cara de cão abandonado e eu não conseguia parar de observar como ele olhava para as mulheres. QUALQUER MULHER que aparecia na frente dele, ele olhava com aquela cara de que vai te atacar a qualquer momento e eu comecei a temer pela integridade de todas ali.

Havia um grupo de 3 meninas conhecidas na mesa de trás. Após ser rejeitado na nossa mesa, percebi que ele foi à mesa delas fazer o mesmo número. Até desconcentrei da conversa com minha amiga, porque a presença dele estava obviamente incomodando a todas, mas as meninas não tiveram coragem de expulsá-lo e ficaram só olhando com cara de ódio, na esperança de ele se tocar e sair. Novamente senti a necessidade de interferir. Me levantei e disse:

- Moço, de verdade, você está sendo MUITO inconveniente!!

As meninas em coro, concordaram comigo:

- Está mesmo!

Eu continuei:

- Dá para você sair daqui e parar de incomodar, por favor?

Ele saiu, relutante, e eu já não conseguia mais relaxar naquele ambiente. Peguei um papel e escrevi para a gerente que o homem estava assediando todas as mulheres do local. Ela me respondeu que uma vez ele foi até expulso desse mesmo bar porque ficava assediando as mulheres e fazendo gestos obscenos para elas. Me disse que eu podia ficar tranquila que ele já estava pagando a conta e indo embora. Como e por qual razão eles permitiram sua volta lá, é que não ficou claro para mim.

Não estamos seguras em lugar algum. A nossa realidade é que um homem aleatório se sente à vontade para se comportar como um bicho solto na selva, nos tratar como um pedaço de carne e não respeitar quando alguém rejeita suas investidas indesejadas.

Eu estou sem palavras para terminar esse post, porque estou exausta de ter que combater esse tipo de animal que é tão comum por aí. A gente não devia passar por isso diariamente. A gente não deveria ter que sofrer assédio quando estamos tentando nos divertir. Não deveríamos ter que dizer o óbvio para um homem que sabe muito bem o que está fazendo.

Estamos cansadas. Se não sabe se comportar como ser humano, então fique preso numa jaula. Não somos obrigadas a perdermos a paz por conta de um neandertal que não tem o mínimo de auto-controle.

PELO AMOR DE DEUS, fique em casa!






domingo, 16 de fevereiro de 2020

Será que você já foi estuprada e não sabe?

- Saí com um cara de uma festa e fomos para o apartamento dele. Eu nem queria transar, só ia dar uns pegas e ir pra casa depois. Quando chegamos lá, por algum motivo, a porta não abria. Ele baixou minha saia ali mesmo no corredor e eu disse que não ia rolar, que eu não queria. Ele sugeriu que fôssemos para o carro dele. Eu disse que queria ir pra casa e ele disse que me deixava. Entramos no carro dele, e ele colocou o protetor de sol. Pulou em cima de mim, eu disse que não ia rolar, ele respondeu que ia sim. Eu fiquei pondo a mão para ele não enfiar, mas ele enfiou.

- Você foi estuprada, você sabe, né?

- An??

Pois é, gente. E foi assim que a minha amiga descobriu que tinha sido estuprada e eu vi a necessidade de falar um pouco sobre estupro, porque a nossa visão sobre ele é bem limitada.

Para muitos, estupro é só quando um maluco te arrasta para o mato e te força a transar. Mas o estupro tem muitas outras vertentes. É preciso manter na cabeça bem claro que qualquer tipo de sexo sem consentimento é estupro, sim. Não importa se você está ficando com a pessoa, namorando, casada, se já está sem roupa, se estava se pegando. Se na hora H você não quiser e a outra pessoa forçar, você está sendo estuprada.

Eu sei que é difícil aceitar isso, eu já passei por essa revelação.

Uma vez eu ficava com um cara e saímos de uma festa bêbados. Eu mal conseguia ficar em pé, estava absolutamente inconsciente, mas me lembro direitinho de falar para ele que queria ir para casa e esse pedido ser totalmente ignorado. Ele me levou para casa dele e eu só lembro de flashes dele transando comigo e eu sem conseguir reagir, até porque ele era um cara bem forte e grande.

Demorou anos para que eu entendesse que naquele dia eu fui estuprada pelo meu ficante. Ele tirou vantagem da minha condição e me violou.
Foram necessárias muitas leituras, ouvir muitos depoimentos, e finalmente, o que me derrubou, foi o clipe da Lady Gaga "Till it happens to you", que mostra várias cenas de estupro - uma delas onde o cara se aproveita de uma menina que estava inconsciente. Eu chorei quando assisti porque eu me vi ali e tomei consciência de como o estupro realmente funcionava.

A verdade é que muitas de nós fomos estupradas sem saber.
Tudo isso porque não consideramos estupro quando gostamos da pessoa ou temos tesão por ela. A gente mesmo se culpabiliza pelo excesso de álcool, provocações sexuais ou coisas parecidas. É necessário compreendermos que estupro é muito maior do que imaginamos e fomos ensinadas, e começarmos a ficar mais atentas aos sinais. SEXO SEM CONSENTIMENTO É ESTUPRO E PONTO FINAL.

Espero também que os homens comecem a pensar mais nisso. Quantas vezes você já estuprou alguém? É, é isso mesmo. Pesado? Sim. E tem que ser. Você não é muito diferente do cara que arrasta uma mulher desconhecida e estupra, não.
Quantas vezes você já forçou a barra? Pôs a mão na menina mesmo quando ela relutava, achando que ela fazia "cu doce"?
Quantas vezes você já insistiu para transar com sua namorada/esposa/peguete mesmo quando ela dizia não querer?

O nosso corpo é propriedade nossa. Eu não devo nada a você. Se eu quiser desistir na hora, eu posso. Eu não tenho obrigação nenhuma de abrir meu corpo para você quando você bem entender. O consentimento é mandatório, eu sou dona do meu corpo. Não é porque eu tenho uma relação com você ou porque te dei uns pegas que eu sou obrigada a ir até o fim. Essa decisão é apenas minha. Está mais que na hora de todos os homens entenderem isso de uma vez por todas.

E a gente fica aqui desse lado, denunciando essa cultura monstruosa e ajudando umas às outras a aprender cada vez mais um pouco sobre como a misoginia está presente no nosso dia-a-dia. Vamos à luta!

sábado, 4 de janeiro de 2020

A nossa suposta missão de transformar os homens em... homens


Olhem bem para essa imagem e seus detalhes. Tem tanta coisa errada nela que eu mal sei por onde começar.

Primeiramente, o que é uma mulher feminina? Desde o começo do movimento feminista a discussão sobre feminilidade começou e até hoje não ficou muito claro na cabeça de muita gente que ser mulher não tem nada a ver com o modo de se vestir, falar, andar etc. Aliás, a própria expressão "ser feminina" é uma total criação da sociedade conservadora para te convencer de que para ser mulher você precisa ser delicada, falar baixo, usar só vestidos e saias, maquiagem, jóias, enfim, parecer uma princesa da Disney. Mais uma forma de exercer poder e controle sobre a sua vida. A frase "Feminina sim, feminista nunca" é espalhada por aí como uma ideia de que as mulheres feministas são todas iguais: não depilam, tem cabelo Joãozinho, só usam roupa larga, bebem cerveja e amassam a lata, arrotam em público, odeiam maquiagem. Tentam te convencer disso e muitos acreditam. O movimento feminista é sobre escolhas. E isso implica também o seu estilo pessoal de comportamento e vestimenta. Faça como quiser. É disso que estamos falando. Você achar que não existem feministas que amam maquiagem, têm zero pêlos no corpo, são delicadas etc, é prova cabal de que você realmente não conhece o feminismo. É pura ignorância sobre o assunto.

A segunda coisa que me chama atenção é a imagem de uma moça segurando um bebê com todo amor do mundo. Como se, para ser mulher de valor, para ser feminina, você precisasse necessariamente ter filhos. É preciso separar a mulher da obrigação de reproduzir. Nós não somos apenas potenciais mães. Existem muitos sonhos dentro de nós que podem ou não incluir filhos. Muitas mulheres têm filhos sem nem pensar se REALMENTE querem, porque cresceram com essa expectativa sobre suas cabeças e de repente não reproduzir parece uma ideia muito absurda. Acreditem, vocês tem escolha. Você é um ser humano completo. Não ter um filho não vai te deixar incompleta. O que nos deixa incompletas é abrir mão de sonhos reais e viver uma vida frustrada. Tenha filhos ou não, SE QUISER. Muitas mulheres feministas têm filhos e os amam com o mesmo amor de mulheres que não se consideram feministas. Achar que feministas são contra o ato de reproduzir é mais um traço da ignorância sobre o movimento.

O terceiro ponto, claro, são essas frases absurdas de que "mulher transforma homem" e de que "homem vira homem diante de uma mulher feminina". Porque essa ideia se espalhou por aí, encontramos tantos homens infantis aos 30. Homens que não se vêem na obrigação de amadurecer até que encontrem uma esposa - ou seja, uma segunda mãe - que diga para eles o que tem que fazer para deixar de ser menino e virar homem. Desde pequenas ouvimos que as meninas amadurecem mais rápido. Isso não é biológico. Isso é social e só existe porque é exigido muito mais comportamentos responsáveis de meninas do que de meninos, desde pequenos. As meninas sempre tem que ter letra bonita, caderno organizado, material impecável, notas boas, brinquedos bem cuidados, quarto arrumado, não arrotar, sentar com a perna fechada "que nem mocinha", ajudar nas tarefas domésticas, e por aí vai. A lista é infinita. Sem ter responsabilidades, não é de se estranhar que homens demorem muito mais para amadurecer do que mulheres, não é mesmo? O amadurecimento de qualquer pessoa passa diretamente por ter que lidar com responsabilidades, com situações adversas, com experiências diferentes, com a necessidade de enfrentar problemas. E se os nossos meninos não são expostos a isso, continuaremos a ter uma sociedade com moleques de 25, 30, 40 ou 50 anos.

Outro problema dessas frases é o peso nas costas das mulheres. Essa síndrome de Mulher Maravilha que acabamos abraçando como missão. Quantas de nós já conhecemos um cara estragado e achamos que, com nosso amor, carinho e dedicação, iríamos transformá-lo num príncipe? Provavelmente todas nós passamos por isso alguma vez na vida. Quase que 100% das vezes o resultado é um belo par de chifres na cabeça, um relacionamento abusivo ou algo parecido. Nós não somos mecânicas para consertar carro quebrado. Nós merecemos um carro zero. E no momento em que compreendermos que não é função de ninguém arrumar a vida do outro, vamos parar de aceitar menos do que merecemos. Entenda: ninguém conserta ninguém além de si mesmo. Se a pessoa quer mudar, evoluir, melhorar, amadurecer, é responsabilidade dela. Estar cercado de pessoas que apoiem, que incentivem e motivem é ótimo, mas nenhuma mudança vai ocorrer se a própria pessoa não quiser e não se esforçar. Tem que partir dela, independente de gênero ou orientação sexual. Essa história de transformar homem é só mais uma responsabilidade que querem atirar para nós, para que os homens mais uma vez possam se eximir das consequências dos seus atos e as mulheres continuem sendo a grande fonte de culpa da sociedade.

Depois de tantas reflexões possíveis sobre uma única imagem com frases aparentemente inofensivas, é inevitável não me preocupar com o rumo em que as relações tomam ainda hoje, no século XXI. É tão antiquado, tão inapropriado, tão sem sentido esperar que o outro tenha a missão de me curar das minhas infantilidades, que eu me pergunto se algum dia vamos de fato alcançar a igualidade de gênero pela qual tanto lutamos. Se até em nossas próprias vidas pessoais ainda há tanto a se alcançar, quando vamos conquistar direitos sociais mais justos? Conquistaremos?

domingo, 22 de dezembro de 2019

Um perigo chamado carência

Depois de estar solteira por tantos anos, chegamos àquela encruzilhada entre o não conseguir se envolver com tanta facilidade e o acabar se envolvendo com qualquer um por pura carência. Já até escrevi aqui sobre o desafio de não ficar totalmente cética, mas também não forçar a barra só para não ficar sozinha.

Tem dias que é super fácil ser a sensata da vida e agir com maturidade, mas de tempos em tempos, a dona carência chega a um nível perigoso onde a gente corre sérios riscos de ignorar sinais importantíssimos em nome de viver um romancezinho sequer, nem que seja só para tirar a poeira do coração.

Foi aí que eu reencontrei um rapaz que havia sido apaixonado por mim na época da escola e quase troquei os pés pelas mãos. Todo aquele frisson de adolescente de alguma forma reapareceu dentro de nós e de repente estávamos nos falando todos os dias. Eu, solteira há mais de 6 anos, sem filhos. Ele, recém-separado de um relacionamento de 8 anos com uma mulher sabidamente instável e que não aceita o fim do casamento, com o adicional de 3 filhos. Parecia que a novela mexicana já estava escrita, e mesmo lendo o script antes de beijá-lo, eu acabei caindo nessa furada.

Por que será que carência deixa a gente cego tal qual quando estamos apaixonados por alguém? Por que a gente começa a relativizar tudo e relevar algumas coisas importantes, ouvindo seu cérebro dizer "ah, mas ele te trata tão bem, ele foi tão apaixonado por você, ele é uma pessoa tão bacana!"?

The thing is: não é sobre ser ou não ser bom. É sobre não ser bom para você. E pronto.

Ficar com um cara numa vibe super nostálgica e romântica e no outro dia ser bombardeada pela ex do cara (que tem todas as senhas das redes sociais dele - e eu nunca vou entender essa falta de privacidade que certos casais confundem com confiança!) é puro sinal de que é uma cilada, Bino. Por mais que saibamos da instabilidade emocional da moça (o que, acreditem, para mim é bem difícil de concordar, como feminista que sou), até onde o que ela diz é mentira? E mais, até onde o que ela diz vai passar reto e não te afetar em nada? Sou assim tão evoluída?

A verdade é que a mulher já foi denunciada por ameaçar a última tentativa de romance do ex-marido de morte e inclusive condenada a pagar indenização e prestar serviços comunitários. Ela jogou roupas e livros dele fora. Ela furou os 4 pneus de seu carro e jogou xixi nos bancos. Ela usa os filhos como forma de ameaçá-lo. E toda vez que ele chega perto de mim, ela descobre e me manda mensagem inventando alguma coisa para que eu desconfie de que tudo o que ele fala e faz é mentira.

Onde vou parar me envolvendo em uma história tão maluca, sendo enroscada em uma relação tão tóxica? Serei eu envenenada também?

E foi aí que o lado racional do meu cérebro começou a berrar, porque não importa que ele me trate como uma rainha, me faça sentir desejada, admirada ou passível de ser amada. Essa confusão é grande demais pelos poucos benefícios recebidos.

Eu mereço sim tudo isso que ele estava me fazendo sentir, mas como diria Cazuza, eu quero a sorte de um amor tranquilo. Sentir tudo isso e no dia seguinte sentir uma tensão absurda, um medo de estar sendo vigiada a cada passo e pavor de a qualquer momento sofrer alguma tipo de agressão física ou psicológica faz esse lance perder todo o valor.

Eu sinto que está na hora de meu coração voltar a ter mais do que apenas a função de bombear sangue, mas quando isso acontecer, vai ser com alguém que me faça sentir segura o tempo todo e não apenas enquanto está fisicamente na minha presença. Valeu a tentativa, universo, mas eu quero (e mereço!) muito melhor que isso.

sábado, 26 de outubro de 2019

Sexo frágil ou super-heroínas

Estive pensando nos esteriótipos que a sociedade criou para as mulheres. É óbvio que poderia passar horas fazendo uma lista de comportamentos bem específicos que exigem de nós no trabalho, em casa, na cama, enquanto mãe, irmã, esposa, namorada. Além dos padrões de beleza que nos impõem todos os dias, a juventude eterna que nos é cobrada e outras infinitas variedades que fazem do "ser mulher" algo tão complexo e muitas vezes sofrido.

Porém, hoje eu pensava especialmente sobre dois esteriótipos bem gerais: o que criaram para nós desde o começo dos tempos, o de sermos o SEXO FRÁGIL, em oposição ao que nós mesmas acabamos criando para nós, possivelmente para combater esse outro, o de sermos SUPER-HEROÍNAS.

O de sexo frágil sempre incomodou a maioria de nós, porque foi - ou é - usado pelos homens para exercer machismo sobre nós. A ideia de que precisamos de um homem para sermos felizes implica uma fragilidade, onde a mulher é emocionalmente e financeiramente dependente do sexo masculino. Ainda hoje, embora em uma escala bem menor, podemos encontrar mulheres que passam a vida procurando um marido, como se a única fonte de felicidade de sua vida fosse o casamento ou que um marido seria a garantia de uma vida próspera e feliz. Muitas famílias ainda endossam essa ideia estapafúrdia e se preocupam mais se a filha está encalhada do que com sua formação acadêmica ou saúde; e de repente encontramos várias mulheres infelizes, não-realizadas, presas a relações abusivas ou sem a menor condição de se impor por ser de alguma forma dependente de alguém do sexo masculino (normalmente o marido, às vezes o pai). Dito tudo isso, acredito que esse esteriótipo esteja caminhando para uma extinção - se tudo der certo! -, pois hoje muito se fala sobre independência feminina e quase todas nós já entendemos que independência é liberdade. Independente da mulher se considerar feminista ou não, quase nenhuma quer depender de alguém.

Para ser sincera, o esteriótipo de super-heroína anda me preocupando mais. Não me levem a mal, somos de fato heroínas. Não tem como não ser, diante de tudo o que passamos diariamente. Mas eu começo a enxergar várias consequências desse "apelido carinhoso" para as mulheres. Crescemos ouvindo, todo dia 08/03 em especial, que as mulheres são guerreiras, fortes, batalhadoras. Que aguentamos tudo, coisas que os homens nunca aguentariam. Vocês conseguem ver o perigo que isso representa na sociedade atual?

Não há espaço para a mulher ser quem ela é no momento em que ela quiser ou puder ser. Ou ela tem que ser uma flor delicada frágil ou ela tem que ser sempre a foda que tudo suporta.

Olhe para sua mãe. Qual a primeira palavra que você usaria para defini-la? Eu usaria FORTE. E aposto que muitos de vocês também.

Nossas avós foram da geração do sexo frágil. Casavam cedo, casamentos arranjados muitas vezes. A maioria não tinha emprego para ficar em casa cuidando dos filhos, o que as tornavam escravas de seus relacionamentos, aprisionadas a seu provedor, porque não teriam para onde ir ou o que comer, caso resolvessem se separar. Dessa forma, elas se submetiam a qualquer coisa.

As nossas mães vieram para abrir a caixa das heroínas. Jornada tripla de trabalho: trabalhando fora, cuidando da casa e dos filhos, estudando para conseguir algo melhor. Várias mães solteiras. Muitas começaram do nada e hoje tem uma condição confortável por conta dessa loucura de até se anular para conseguir o mínimo para sua família. Ela se superou, ela é uma guerreira. Admiram sua força.

Já pensou em quanto ela já sofreu calada por não querer que ninguém soubesse que ela também era fraca às vezes? Que ela queria ajuda, que tinha vontade de desistir? Nunca vimos as lágrimas que as nossas mães choraram escondidas. Quantas vezes perguntamos "O que foi?" e ela respondia "Nada não"? O fato é que elas precisavam passar a imagem de "sou forte o tempo todo, eu aguento qualquer coisa". Não seria essa uma outra forma de prisão?

E nossa geração também vem repetindo isso, de querer suportar tudo, porque as pessoas acreditam que nós somos guerreiras o tempo todo. Se alguma coisa da minha vida sair um pouco do padrão, então já começam a dizer que eu não estou bem. Não tem nada de errado comigo! Eu apenas sou um ser humano. Que tem momentos fortes e frágeis. Que gosta de ser vista como inspiração de força sim, mas que também precisa de ajuda e de uma palavra de carinho. Que tem vontade de jogar tudo para o alto, que comete erros e acertos. Que um dia é a determinação em pessoa e no outro dia não consegue levantar um dedo para nada. Simplesmente humana. Nenhuma guerreira invencível de Games of Thrones.

Me preocupa que desde pequena as meninas aguentem tudo. Que sofram caladas, que seja ensinado a elas que "se acostumam, vida de mulher é difícil mesmo"; que a sociedade diga que elas vão necessariamente amadurecer mais rápido que os meninos, porque é assim mesmo. ISSO NÃO É BIOLÓGICO. O amadurecimento das meninas vem antes porque isso é exigido delas desde cedo. Meninas tem que se comportar, fechar as pernas, falar baixo, ter a letra bonita, o material bem-cuidado, o caderno caprichado, as notas boas. Em que escala isso também é cobrado dos meninos? Em uma muito menor. Gente, acreditem: NADA É POR ACASO.

Quero que minhas alunas e minha sobrinha saibam que elas são fortes, sim, mas que elas não tem que aguentar tudo. Que elas podem pedir ajuda e que às vezes serão frágeis e que não tem nada de errado com isso. Que o ser humano é complexo e a vida não é mole e que não tem problema de vez em quando você se sentir uma merda. Isso não define quem você é e nem tira o seu valor.

Esse post é uma reflexão sobre em que nível estamos nos permitindo, enquanto mulheres, sermos um pouco de tudo o que todo ser humano é. A gente não tem que aguentar tudo nem ficar o tempo todo preocupada com a imagem que estamos passando. E nem depender de ninguém, para estar pronta para cair fora quando e se for necessário.

Nem sempre 8, nem sempre 80, mas todos os números do meio também. Você não é só frágil nem só forte. Você só é uma pessoa. Olha que loucura?!




domingo, 29 de setembro de 2019

Eu, você e seu viagra

Sabemos que o mundo não é feito para pessoas com necessidades especiais. Há pouca acessibilidade, muito preconceito e os direitos nem sempre são garantidos a essas pessoas. O que isso tem a ver com este blog? Segue lendo que você vai entender.

Nessa vida louca de Tinder a gente já viu de tudo. Alguns de nós já viveu coisas que até Deus duvida. A história de *Laila é uma dessas.

Laila conheceu *Hugo no Tinder e começaram a conversar. A primeira coisa que a encantou foi a conversa extremamente inteligente. O rapaz parecia ser conhecedor de tudo um pouco, a conversa fluía maravilhosamente bem e o interesse só foi crescendo. Sabemos que inteligência é afrodisíaco e Laila ficou impressionada com o rapaz. Logo ele a convidou para jantar e ela prontamente topou. Ele, porém, fez uma revelação no mínimo diferente: era cadeirante.

Qualquer outra mulher poderia ter se afastado nesse momento, afinal, é uma situação complicada e a maioria de nós seria sim afetada pelo preconceito. Mas Laia tinha um irmão cadeirante e conhecia muito bem a vida de uma pessoa com necessidades especiais. Sabia que enfrentaria alguns percalços, mas queria dar uma chance de enxergar além daquela particularidade.

O primeiro obstáculo foi quando eles chegaram ao estacionamento do restaurante. Ele pediu para que ela fosse no carro ajudá-lo a descer. Foi estranho esse ser o primeiro contato dos dois, mas apesar de ter ficado meio constrangida, ela foi lá ajudar. Sabia que não seria um encontro dentro da normalidade, vamos dizer assim. Só não me imaginava o quanto.

Quando chegaram ao restaurante, Laila disse que se sentiu absolutamente julgada. Era como se todos os presentes estivessem julgando-na por ter um date com um cadeirante. Sentia que todos os observavam, imaginando como aquilo iria se desenrolar.

Hugo era o mesmo cara interessante do app. A conversa era tão boa, que quando menos esperava, sem nem mesmo perceber, o rapaz estava do lado dela (no começo do encontro estavam um de frente para o outro). E quando se beijaram... o restaurante todo parecia ter congelado, incrédulo por ela ter beijado aquele cara.

O constrangimento não parou por aí, pois ele disse que precisava de ajuda para comer. Foram a um restaurante mexicano e muitas comidas precisavam ser consumidas com as mãos, mas ele alegou não ter força nas mãos para segurar as coisas. Ela, mortificada de vergonha, teve que ficar alimentando-o na boca, feito um bebê. Ele não se fazia de rogado, até os dedos dela lambia sem cerimônia nenhuma. Ta aí uma coisa que você nunca imagina viver em um primeiro encontro. Ou em qualquer momento da vida em um lugar público, for that matter.

Quando ela achava que as cenas estranhas daquele dia haviam chegado ao fim, ele pede para eles ficarem um pouco conversando dentro do carro. Começaram a se pegar e, de repente, esse homem cria 54 braços e ela disse que nunca viu uma coisa daquela. Ele estava subindo pelas paredes de tesão e sim, ele jurava que eles iriam transar. Ela disse que o freou e avisou que não ia rolar. Ele ficou indignado e disse que tinha certeza que ia acontecer. E que ele tinha tomado um VIAGRA no momento em que ela tinha ido ao banheiro, tamanha a certeza que tinha. Ela, obviamente, ficou totalmente chocada e disse que não entendia de onde vinha aquela certeza, sendo que o encontro havia sido tão tranquilo.

Tem alguns outros detalhes dessa história que eu omiti, mas acredito que o mais importante ficou aí.

Estou tendo muita dificuldade de concluir o post, porque foi tão absurdo que me faltam as palavras. Eu não sei de onde ele tirou a ideia de que eles iriam transar assim, sem nem consultá-la, sem estar rolando aquele clima sexual desde o começo. Eu não sei se ele achou que ela estava sendo legal demais com ele para não querer sexo depois. Difícil saber o que se passou na cabeça do ser humano.

Eu tenho desconfianças sérias de que ele também exagerou na história do "eu não consigo segurar a comida, me dê na boquinha".

Meninas, a verdade é... não estamos tendo escapatória. Tem louco saindo pelo ladrão. E eles andam com VIAGRA no bolso. Fiquem alertas!

domingo, 28 de julho de 2019

O maluco das lantejoulas

Com o advento das redes sociais, inauguramos uma nova era da paquera. Além dos apps específicos para isso como Happn e Tinder, o próprio Instagram se tornou um ótimo meio de conhecer pessoas novas. O problema é que na rede em que tudo parece perfeito, detalhes importantíssimos podem ficar mascarados e aí, my friend... prato cheio para esse blog aqui!

Hoje vou contar a história de um date de uma amiga (vou chamá-la de Lili) com um cara digamos, inusitado, que ela conheceu no Instagram. Vou chamá-lo de Paulo.

Após alguns dias de conversa no Direct do Instagram, Paulo convidou Lili para um cineminha, que ela prontamente aceitou.

Lili, sempre muito elegante, colocou seu scarpin vermelho, uma linda blusa, sua calça jeans preferida e passou seu melhor perfume. Linda e fina, pronta para causar aquela boa primeira impressão.

O universo já deu o primeiro sinal do desastre que aquilo seria quando Paulo disse que estava na porta de seu prédio e ela quase entrou no carro errado. Chegou a colocar a mão na maçaneta, quando recebeu uma mensagem dizendo que ele tinha errado o endereço. Quando finalmente ele chegou, ela ficou abismada com o carro do moço. Além de estar sujo, estava caindo aos pedaços. Para conseguir abrir a porta tinha toda uma técnica de segurar e empurrar para cima ao mesmo tempo, uma loucura. Como ela não tem carro, pensou "bom, eu nem tenho carro, melhor esse do que nada né?" e seguiu o baile. Difícil foi superar o look do rapaz: uma camiseta azul piscina com glitter, uma calça jeans rasgada, um cinto branco e uma jaqueta caramelo com lantejoulas.

Ao chegar no cinema, o cartão de Paulo não passou no momento de pagar pelo ingresso. Ele disse que era um problema com a bandeira e ela sugeriu que ele pedisse ao banco para trocar a bandeira do cartão, pois tinha passado pelo mesmo problema. Ele alegou que estava com o nome sujo. Felizmente, ele tinha sacado dinheiro e ela não teve que bancar tudo sozinha.

Na hora de comprar o lanche, Lili pediu uma pipoca com manteiga e coca-cola. Ele disse que estava de dieta e ela respondeu "mas eu não!".

Quando o filme começou, seu pesadelo continuou. Ele não a deixava comer e nem assistir ao filme direito, pois ficava jogando o corpo em cima dela. Colocou as pernas sobre as pernas dela e envolveu seu braço no dele (até ficar dormente), deixando totalmente sem movimento.

Ao fim do filme, ele foi deixá-la em casa. Quando ela tentou sair do carro, ele sentou no colo dela, agarrou-a e disse: "não vá, não me deixa! A lua está tão linda!". Lili ficou sem acreditar que aquilo de fato estava acontecendo, especialmente em um primeiro encontro. Conseguiu descer do carro e ir para casa após alguns minutos.

Alguns dias depois, ele a chamou para almoçar. Apesar do primeiro encontro horroroso, ela queria dar uma segunda chance, não queria julgar o rapaz por apenas uma saída.

Foram em um rodízio de galeto. Mais uma vez, o look dele foi um show à parte: calça jeans, regata com aquelas aberturas enormes nas laterais e um tênis vermelho.

Ao começarem a comer, ela ficou horrorizada com a cena: ele comia parecendo que o mundo ia acabar. A impressão é de que ele não sabia usar talheres, ficava gritando ( de boca cheia): "quero mais coxinha!"; suas mãos estavam tão oleosas que ele não conseguia segurar o copo e pedia que ela colocasse o refrigerante em sua boca. A boca também estava toda imunda, mas mesmo assim ele ficava pedindo que ela o beijasse.

Durante o almoço, ela descobriu que todas as tatuagens que ele tinha haviam sido feitas com ex-namoradas. Ele disse que iria cobri-las e que custaria 5mil reais. Ela sugeriu que esse dinheiro seria melhor gasto pagando o cartão e limpando o nome dele.

Após o almoço, Lili queria ir embora, mas Paulo disse que queria apresentá-la a melhor amiga - que estava na casa dele -, não sem antes dizer que ele tinha perdido a virgindade de boca com ela (sabe lá Deus porque ele achou que essa informação fosse relevante). Quando entrou na casa de Paulo, Lili descobriu que ele morava com mais 10 pessoas. A casa era imunda, tinha comida e roupa para tudo quanto é lado. Ele disse que precisava estender umas roupas no varal. Nesse momento, ela percebeu que todas as roupas dele tinham glitter e/ou lantejoulas. Foi um golpe duro demais para aguentar.

Ela suplicou para que ele a deixasse em casa. O irmão dele, que a propósito estava super bêbado, foi junto, deixando a volta para casa ainda mais terrível.

Depois de dois dates como esse, ela resolveu que realmente não tinha como aquilo dar certo e parou de respondê-lo. Até que um dia ele lhe manda uma mensagem desaforada dizendo que ela tinha acabado com a vida dele. Que ele sonhava com o casamento deles; que ele seria personal e ela ficaria em casa cuidando dos filhos. Quando você pensa que o sujeito não tem como ser mais tosco, ele ainda fecha com chave de ouro.

A lição que tiramos disso tudo? Cuidado com redes sociais. Antes de sair com uma pessoa, certifique-se de que o estio dela te agrada, que vocês tem afinidade e que ele não seja um maluco machista querendo te transformar em dona de casa. E se der, tente descobrir algo sobre os hábitos de higiene do rapaz, por que né? Beijo com óleo de galeto... ninguém merece!

segunda-feira, 13 de maio de 2019

A admirável arte do SIM

Eu tenho medo de casamento. Parece uma frase meio doida, mas hoje consigo identificar de onde vem minha dificuldade de estar em relacionamentos longos.

Eu tenho 32 anos e meu namoro mais longo foi de 1 ano e 8 meses, há mais de 10 anos. Meu padrão de relacionamento é me envolver com pessoas que tem poucas afinidades comigo e em 3 meses a validade da empolgação expirar. A ideia de "os opostos se atraem" é a maior balela, para mim. Eu sempre acabo buscando aquele elo duradouro entre a outra pessoa e eu, e nunca encontro. As poucas vezes que conheci pessoas com bastante afinidade comigo, eu me apaixonei perdidamente e acabei machucada por N motivos diferentes.

Depois do meu último namoro, procurei uma terapia. Era difícil acreditar que eu tinha enjoado de mais uma pessoa. Afinal, qual era o meu problema? Eu precisava saber!

Após algumas sessões de análise, de cavar fundo no meu histórico amoroso e familiar, a psicóloga chegou a conclusão de que eu supervalorizo a ideia de casamento. Que, para mim, o casamento é um negócio tão ideal, que eu dificilmente me verei na posição de me comprometer de forma tão séria.

Um dos maiores pavores da minha vida, é ter um relacionamento igual ao dos meus pais. É ser como a minha mãe e encontrar um cara como meu pai. Minha mãe lutou para salvar o casamento dela de todas as formas que pôde. Adiou até demais a separação. Eu vivi uma vida de pensar "a qualquer hora minha mãe vai desistir". Ela foi persistente, porque é assim com tudo. Mas a verdade é que meu pai não tinha o que ela queria para dar. O que ele tinha para oferecer era muito pouco para as expectativas dela e ela não percebeu isso no início.

Não havia companheirismo entre eles. Meu pai trabalhava de domingo a domingo e mesmo assim nunca tinha dinheiro. Minha mãe, como a maioria das mulheres, fazia jornada tripla, estava sempre à beira de um ataque de nervos. Raramente via os dois em um momento de intimidade, de romance. Eles nunca saiam juntos. Meu pai sempre dormia no sofá assistindo jornal e minha mãe sempre ia beber e dançar com os amigos.

Minha família nunca viajou junta. Aliás, as vezes que viajamos, éramos só eu, minha mãe e meu irmão. A gente não fazia nada os 4 juntos. Meu pai nunca foi muito família e minha mãe sempre sonhou com isso. Acho que dá pra diagnosticar onde o casamento deu errado, né?

O fato de eu não conseguir me envolver facilmente vem desse medo. Eu tenho dificuldade de acreditar que vai dar certo, e aí não dá. Eu tenho pavor de acabar me contentando com alguém que não pode me oferecer o que eu procuro em um relacionamento. Mas eu ainda não entendi como eu somatizo isso e acabo enjoando dos caras. E nem porque quando eu acho que está certo, a pessoa sempre me magoa. Muito menos como resolver isso. Talvez por isso (entre outras coisas) tenha passado 10 anos da minha vida questionando as coisas do amor.

Não é fácil vir aqui admitir minhas fraquezas. Eu vejo minhas amigas casando e acho lindo. O que admiro mais é a fé que elas tem no relacionamento que construíram. Faço piadinhas inapropriadas aqui e ali, mas no fundo é meu mecanismo de defesa, porque nunca tive algo parecido, que me desse a confiança de dizer um SIM tão transformador. Se tivesse como, pediria que elas me ensinassem, porque gostaria de saber como é estar tão confortável com alguém a ponto de saber que ele tem tudo o que você quer e necessita. É óbvio que elas tem dúvidas, mas eu apenas não me imagino tendo a coragem de dar esse passo.

Não é só o casamento dos meus pais, mas quantas histórias escutamos todos os dias? Traições, desconfianças, casamentos de fachada, casamentos assexuados, casamentos abusivos, casamentos infelizes em que as pessoas ficam acomodadas...

A verdade é que, com tanto exemplo ruim, acho bem admirável que elas conseguiam bloquear o barulho e confiar que os seus serão diferentes. E espero que sejam mesmo! Que nossa geração seja mais feliz, mais preocupada em resolver essas coisas, ao invés de ficar jogando para debaixo do tapete e se contentando em ser infelizes. Que cuidem mais um do outro, que se comuniquem melhor, que se abram mais. Quem sabe assim, como mais exemplos bons do que ruins, eu consiga acreditar que pode sim dar certo? Como eu quero!

Enquanto isso, continuarei chorando em casamentos, porque independente do que eu acredite ou não, ô negócio emocionante!

segunda-feira, 8 de abril de 2019

"Mas ela é mulher! É diferente!"

Era uma vez a história de um rapaz que se achava o comedor pica das galáxias e conheceu uma mina ponta firme que não tinha medo de assumir quem era e o que queria. Vamos chamá-los de Jenifer e Wesley, porque a zoeira não pode morrer.

Eles se conheceram no Tinder (porque né?) e começaram a ficar. Já de cara - como nós mulheres já estamos acostumadas - veio avisando que não queria nada sério. Mais que isso, que não acreditava em monogamia. Que só tinha relacionamentos abertos. Que gostava de frequentar casas de swing e praticar menage a trois. Perguntou se ela aceitaria um relacionamento aberto. Ela, que já tinha feito um pouco de tudo dessas loucuras sexuais, sabia que não fazia sentido para ela relacionamento aberto e disse que então não teriam nada.

Eles continuaram ficando, sem muito compromisso, aquela velha história que já conhecemos também. O rolo estava durando bastante tempo, mas sabíamos que Wesley não queria relacionamento fechado. O que ele não esperava, era que ela fosse uma mulher que aproveitava bem as oportunidades que a vida trazia.

Um belo dia, na casa de Jenifer, ele a convidou para ir a uma festa no dia 12. Ela disse que não poderia, porque iria viajar com um boy.

Ele, muito chocado, perguntou:

- É sério isso?
- Sim, ué. A gente não tem nada. Eu não gosto de mentir. Estou te falando a verdade. Tenho um crush em SP, ele está vindo para Goiânia, vou encontrá-lo e passar alguns dias com ele.
- Você só pode estar brincando.

Wesley sentia como se uma faca estivesse o partido de ponta a ponta. Mas como assim ela ia viajar com o outro homem? E ainda dizia na cara dele, sem nenhuma vergonha ou pudor?


Essa história é baseada em fatos reais e pode nos fazer refletir sobre aquele velho conceito de 2 pesos e 2 medidas, que também estamos bastante acostumadas. Essa não foi a primeira vez em que eu ouvi a história de um cara que queria relacionamento aberto, mas não estava pronto para ele. Que não acreditava em monogamia - para ele. É mais um caso de gente que fala "mas ela é mulher. É diferente."
Você dá a premissa da liberdade para o outro, mas quando o outro (a outra, no caso) aproveita o que lhe foi concedido, você não sabe lidar.

Hoje mesmo estava assistindo uma entrevista do Fábio Porchat sobre a nova série que ele estreou mês passado, chamada "HOMENS?". A temática é: homens se descobrindo machistas e tentando lidar com isso e com as mudanças que estão acontecendo no mundo moderno.

Ele citou uma cena onde, um dos personagens trai a esposa com várias mulheres. Posteriormente, descobre que sua mulher tem um amante e se indigna. Quando os amigos o questionam sobre seu não-direito de se revoltar (devido a sua própria traição), ele diz: "mas é diferente!". É diferente por que?

Uma vez, um amigo chegou em minha casa aos prantos. Descobriu uma conversa mega suspeita entre a esposa e um cara no Facebook. A xingou de vagabunda, duas-caras, fingida, traidora, mentirosa. Eu nunca tinha o visto tão magoado, tão nervoso, chorando tanto. Alguns dias depois, eles resolvem dar uma nova chance ao relacionamento. Pouco tempo depois, em nome de um novo relacionamento construído com honestidade, ele abre o jogo: havia traído a esposa duas vezes. Uma delas, durante a gravidez.

Agora me explica... que direito ele tinha àquela reação tão descompensada? A xingar a mulher de tudo quanto é nome, se sentindo ferido, quando ele tinha feito coisa pior? É tanta hipocrisia que não dá para defender!

Eu já vi meu pai defendendo meu irmão e sua mania de trair as namoradas porque "é difícil para ele, vocês tem que entender. Ele é músico, é muito assédio em cima".

E por aí vai! Tenho certeza que cada vez parágrafo que você leu te trouxe a memória de algum homem usando 2 pesos e 2 medidas para analisar uma mesma atitude de acordo com o sexo da pessoa que agiu.

A lição que fica é a seguinte: NÓS NÃO SOMOS IGUAIS, MAS TEMOS DIREITOS IGUAIS. O mundo mudou, acompanhe. Não existe mais passaporte exclusivo para homem fazer o que quer e a mulher ficar sendo a santa, a submissa, a que aceita ser cagada na cabeça. Pare de achar que você tem direito/coragem de fazer alguma coisa e a mulher não. Pare de achar mulher de roupa curta na rua bonita, mas a sua não. Pare de querer comer todo mundo, mas achar que mulher que dá para todo mundo é piranha. Apenas PARE. A balança é uma só, cherrie. Seja ela com um homem ou uma mulher em cima.