É uma geração de transição, como bem disseram. Vivemos toda a transição tecnológica que o mundo nos proporcionou e as transformações absurdas causadas por ela.
Nascemos em vinil, fitas K-7, videocassestes, passamos por CDs, DVDs, Blue-ray e estamos aí trabalhando com Inteligência Artificial, sem negar nada, mas com certa nostalgia dos tempos analógicos. Nascemos com interfones, telefones de fio, pagers, assistimos ao nascimento dos celulares e estamos agora por aí utilizando WhatsApp e redes sociais de modo insano. Vimos e vivemos tudo (e ainda há muito por vir).
Portanto, não deveríamos ser melhores em nos comunicar? Ora, é de se espantar que uma geração que experimentou tantas formas possíveis de se expressar tenha TANTA DIFICULDADE em ser claro, direto e reto em sua comunicação. Como entender? E principalmente... o que falta para reduzir os ruídos de comunicação nos relacionamentos?
Se bem que, se pararmos para pensar, não tinha como ser suficientemente claro. Sei lá para que, inventamos uma caralhada de nomes para definir relações indefiníveis: ficante, peguete, rolo, pretendente. E veio aí a geração Z para piorar ainda mais um trabalho que já era ruim: vieram com ficante premium, conversante, olhante. Supostamente a geração posterior tem que vir para melhorar, mas nessa vocês perderam.
Voltando a reclamar dos ruídos de comunicação, eu culpo as redes sociais. Depois que inventaram curtida e reação de foguinho 🔥, não dá mais para confiar no interesse de ninguém.
"Ele me acompanha nos stories feito novela" - pode significar tudo, mas também pode significar absolutamente nada. E o mesmo se aplica a curtir todas as publicações e mandar reacts. Sinceramente, tem sido exaustivo. A comunicação ficou tão ampla, tão diversa, que ela acabou ficando fútil. Sem sentido. No que dá para confiar?
E sabe o que deixa as coisas ainda piores? As pessoas começaram a esquecer de FALAR. E assim, temos tido uma quantidade absurda de relacionamentos mal resolvidos, onde a pessoa não fala exatamente o que quer, fica deslizando entre sinais e alimenta com atitudes algo que disse não querer (ou vice-versa). É a era do "o que será que isso significa?".
Vamos à vida prática: em outros tempos, quando você conhecia uma pessoa, você estava de fato, CONHECENDO A PESSOA, antes de tomar qualquer decisão. A gente ia ao cinema, conversava, trocava informações relevantes, testava a química, era massa.
Hoje, você conhece uma pessoa e a coisa mais comum é a pessoa fazer o seguinte ritual:
- Avisar verbalmente que não quer nada sério
- Agir como se quisesse algo sério
- Fugir de conversas difíceis e desaparecer sem dar explicações
Não é inédito e unfamiliar, mas vou dar o exemplo de uma amiga. O nome dela é *Cora.
Cora conheceu esse cara jogando futevolei e tals. Começaram a ficar em um momento em que ela tinha terminado uma relação longa e tensa há pouco tempo, então os dois estavam só se divertido, se curtindo e tals, nenhuma intenção inicial de ter nada sério. Porém, as coisas não são escritas em pedra, e é normal que você comece a gostar de uma pessoa com a qual você se dá muito bem e as intenções mudem.
Aí é o pulo do gato: hoje, é como se as pessoas só pudessem escolher um quadrado (do sério ou do casual) e não tivessem permissão para mudar de ideia ou de estar aberto a decidir com o tempo, conforme vai convivendo com a pessoa.
Eis que eles acabaram parando de ficar, ficou um clima estranho.
Beleza.
Beleza?
Alguns meses depois... tudo recomeçou. Afinal, eles ainda se gostavam.
Aí tudo foi diferente. Se viam o tempo todo, se falavam todos os dias, planos, carinho, e o mais importante de tudo: envolvimento de filhos. Os dois têm filhos. E quem têm filhos normalmente não apresenta qualquer pessoa para eles. Espera que seja algo mais estável, especial para envolver crianças no processo. Assim fizeram. Conviveram um com os filhos do outro e tudo parecia mil maravilhas.
Até que um dia... clássico: ele começa a ficar estranho.
Vamos parar para fazer um adendo aqui: se você não quer mais ficar com a pessoa, por que não ter a coragem, a decência, o respeito de ter a conversa difícil? Isso é urgente. Precisa ser melhorado. Essa parada de ficar todo esquisito até a pessoa perceber e terminar com você é uma covardia absurda.
Pois então, seguindo, ela percebeu e o confrontou. Disse que sabia que "namoro" era um rótulo, um status, mas que o comportamento dele estava deixando-a insegura. Ele disse que ia pensar e passou dias sem falar com ela, ignorando-a. Ao ser questionado, a resposta:
- Obrigada por ser tanto e do jeito que você é. Mas infelizmente não tenho outro caminho por ora.
Atitudes comunicam muito mais do que palavras. Então quando você não alinha as duas coisas, machuca as pessoas. E não parece haver muita preocupação com responsabilidade afetiva na nossa geração. Esse é um problema grande e que vem causando a tal da heterofobia (pesquisem!).
Eu também já tive a minha experiência estranha (na verdade, mais de uma, mas vamos exemplificar com uma). Fiquei uns meses com um cara que teve exatamente o mesmo comportamento de ficar estranho (praticamente toda mulher já passou por isso. Os caras em geral têm muito medo de ter conversas difíceis. Na cabeça deles é menos escroto tratar a pessoa diferente até ela desistir) e depois, ao ser confrontado, começar com uns papinho fraco de não querer nada sério.
Na época, tivemos a seguinte conversa:
- Se era só sexo, por que você não deixou claro?
- Mas nunca foi só sexo. Eu sempre quis nossas conversas, dormir de conchinha, saídas, carinhos, risadas.
- Hmmmmm... então, não sei se já te contaram, mas isso é se chama RELACIONAMENTO.
- Ah, mas é sem a parte ruim, né?
A isso só mandei o telefone de uma terapeuta, porque os caras, mesmo com mais de 30 anos, estão com uma visão totalmente equivocada da vida, das relações, como se fosse possível existir algum tipo de relacionamento (inclusive não amoroso) em que tudo seja perfeito e sem cobranças o tempo todo. É um pensamento infantilizado, que reforça o desejo que muitos homens têm (especialmente da nossa geração) de ficarem totalmente longe de responsabilidades em geral. O pior, na minha opinião, é que esses discursos imaturos vêm sempre acompanhando de um "você é maravilhosa", "você é demais para mim", "acho que você merece alguém melhor que eu". Parem. Apenas parem.
Nunca é agradável tomar um fora, mas quando as coisas estão claras e coerentes (discurso e postura), a dor é menor. Ou passa mais rápido, não deixa brechas ou pontas soltas. Deixar a outra pessoa se martirizando pensando que fez algo errado, que poderia ter tido atitudes diferentes é cruel. Porque no fundo, isso é só sobre o covarde que não teve balls para terminar um relacionamento. Ou para ser coerente: se não quer nada sério, não aja como se quisesse. Isso inclui:
- Apresentar pessoas importantes da sua vida
- Convidar para eventos importantes
- Fazer planos para mais de um mês de distância
- Combinar viagens
- Se falar todo dia
- Fazer promessas
Poderia fazer uma lista infinita, mas eu sei que vocês sabem o que é alimentar um sentimento. Ninguém aqui é mais criança - apesar de alguns agirem como se fossem.
Fica aqui o apelo: vamos melhorar a comunicação. Conversas difíceis são necessárias. Ter sentimentos por outra pessoa não é um problema. Estar aberto a viver algo sério ou não também não deveria ser um problema. Tudo pode mudar a qualquer momento. Será que dá para gente evoluir?
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